Ligar-se a nós

Opinião

Mais substância e menos publicidade

Publicado

em

O Ministério do Interior decidiu ensaiar um modelo extraordinário de atendimento, abrindo pontos temporários fora das suas instalações tradicionais e até aos fins de semana. A intenção era clara: responder ao atraso exagerado na entrega de cartas de condução e passaportes. Contudo, o que deveria ser um processo de facilitação transformou-se numa tormenta. Cidadãos de várias artérias da cidade deslocaram-se à baía de Luanda, alguns chegando a pernoitar apenas para receberem o seu documento.

O Ministro, sempre que pode, tenta suavizar a situação. Diz-se até que o atendimento muda quando ele está por perto. Mas essa presença, mais do que resolver, parece apenas maquilhar o problema. O episódio faz lembrar a cena épica protagonizada por Sebastião Martins, então Ministro do Interior, quando um assaltante cercado pela polícia exigiu a sua presença para se render. Sebastião foi prático, firme, e soube ler o contexto. Era um ministro com competência contextual acima da média.

Manuel Homem não está distante desse registo, mas escapa-lhe a leitura do momento. Por mais boa que tenha sido a iniciativa de atendimento extraordinário, era previsível que o local se transformasse em confusão e que cidadãos passassem noites à espera de um passaporte — documento obrigatório para sair do país. Esse lapso contínuo vai-se transformando em padrão.

Exemplo disso foi quando, mediante reclamações nas redes sociais, decidiu receber no seu gabinete oficial o seu antigo patrão, Henrique Miguel “Riquinho”. O gesto, que poderia ter sido privado, foi transformado em ato público. A decisão levantou questões sobre a essência da competência humana: estaria o ministro a agir por convicção ou por publicidade?

O contraste é evidente. Sebastião Martins representava a liderança prática, capaz de enfrentar crises com leitura contextual e firmeza. Manuel Homem, pelo contrário, parece refém da visibilidade, mais preocupado com a fotografia do momento do que com a substância da política.

O país não precisa de ministros que apenas apareçam. Precisa de líderes que antecipem, planeiem e resolvam. O gesto público deve ser mais do que espetáculo; deve ser política consistente. Caso contrário, o cidadão continuará a pernoitar na baía, refém da burocracia e da publicidade.

Publicidade

Radio Correio Kianda

Publicidade




© 2017 - 2022 Todos os direitos reservados a Correio Kianda. | Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.
Ficha Técnica - Estatuto Editorial RGPD