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Especial Venezuela

O zumbido da mudança: quando os EUA cruzam a linha dos drones kamikaze

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Os registos audiovisuais do ataque dos Estados Unidos à Venezuela no sábado levantam uma hipótese que, se confirmada, tem peso histórico: o uso de drones de ataque unidirecional (OWA), vulgarmente chamados de drones kamikaze. O detalhe que chama atenção não é apenas técnico, é simbólico. O som captado nos vídeos, um zumbido metálico e contínuo, é inquietantemente semelhante ao dos drones Shahed, de origem iraniana, amplamente usados pela Rússia na guerra da Ucrânia. Quando a assinatura sonora coincide, os analistas levantam a sobrancelha. E com razão.

Até aqui, os EUA mantinham uma posição ambígua: desenvolviam, testavam, exportavam tecnologia semelhante, mas evitavam o uso declarado desse tipo de munição em combate directo. Se esta utilização se confirmar, estamos perante uma mudança silenciosa, porém profunda, na doutrina militar americana. Silenciosa no discurso oficial, barulhenta no campo de batalha. O zumbido passa a ser a nova linguagem da guerra moderna.

Drones kamikaze são armas da era da eficiência brutal. São baratos em comparação com mísseis tradicionais, difíceis de detectar, altamente precisos e psicologicamente perturbadores. Não carregam apenas explosivos; carregam medo antecipado. A sua eficácia não está só no impacto físico, mas na incerteza constante. Quem já ouviu esse som sabe: não é um avião, não é um míssil. É algo pior porque pode estar à procura de um alvo específico.

O facto dos EUA, tradicionalmente críticos do uso indiscriminado desse tipo de armamento por actores como Rússia e Irão, poderem agora estar a empregar a mesma lógica, expõe a hipocrisia estrutural da política internacional. Quando o “outro” usa, é barbárie. Quando o centro do sistema usa, é inovação estratégica. A guerra não muda; muda apenas quem escreve o comunicado.

No plano geopolítico, o recado é claro. Washington sinaliza que está disposto a usar todos os meios disponíveis para manter superioridade, mesmo que isso signifique normalizar tecnologias que antes criticava. Para a Venezuela, o impacto vai além do dano material: é um aviso de que o conflito entra numa fase de assimetria tecnológica total. Para o mundo, abre-se um precedente perigoso.

Se este for mesmo um dos primeiros usos operacionais de drones OWA pelos EUA, entramos numa nova etapa da militarização global. O que era exceção torna-se padrão. O que era teste vira doutrina. E, como sempre, quando os grandes normalizam novas armas, os médios copiam e os pequenos sofrem.

A ironia final é quase cruel: os EUA podem ter adoptado uma tecnologia associada ao Irão um dos seus principais adversários estratégicos. Na geopolítica, não há pureza, só eficácia. E quando o som da guerra começa a soar igual em todos os lados, fica claro que a distinção moral entre “bons” e “maus” é cada vez mais frágil.

O futuro dos conflitos não chega com estrondo. Chega com um zumbido. E quando percebemos, já está por cima de nós.

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