Especial Venezuela
Venezuela reage com mão dura: afirmação de soberania ou sinal de fragilidade do Estado?
A ordem do governo venezuelano para que as forças de segurança iniciem a “busca e captura” de todos os que apoiaram ou promoveram o ataque dos EUA é, antes de tudo, um acto político de afirmação interna, mais do que uma medida operacional com reais hipóteses de sucesso.
Num Estado fragilizado, com cadeias de comando ainda em recomposição e sob intensa vigilância externa, esta decisão serve três objetivos claros. Primeiro, reafirmar autoridade: mostrar que o Estado venezuelano continua a existir, reage e exerce o poder coercivo dentro do seu território. Segundo, disciplinar dissidências internas, sobretudo dentro das forças armadas, elites administrativas e sectores económicos que possam estar a recalcular lealdades após a queda de Maduro. Terceiro, construir uma narrativa de resistência, deslocando o debate do colapso do regime para a defesa da soberania nacional.
Na prática, porém, esta ordem enfrenta limites sérios. Muitos dos alegados “apoiantes” do ataque estão fora do país, protegidos ou invisíveis. Outros estão dentro do próprio aparelho do Estado, o que torna a caça selectiva e politicamente arriscada. Há ainda o risco da medida ser interpretada como perseguição política, agravando as tensões internas e oferecendo a Washington mais argumentos para justificar uma pressão adicional ou novas intervenções.
Do ponto de vista geopolítico, a decisão também é um sinal para fora: Caracas tenta demonstrar que não aceita a narrativa americana de operação policial, insistindo que houve um ataque externo com cúmplices internos. É uma tentativa de recentrar o discurso na violação da soberania, sobretudo perante a Rússia, a China e parte do Sul Global.
Em suma, a ordem de captura é menos sobre justiça e mais sobre controlo, sobrevivência e sinalização. Resta saber se o Estado venezuelano ainda tem força suficiente para transformar o gesto simbólico em acção eficaz ou se isso apenas aprofundará a instabilidade que diz querer combater.
