Crónica
O medo da juventude angolana está a roubar o futuro do país
Dizem-nos, desde cedo, que a vida exige preparação, estabilidade e certezas. Dizem-nos que é preciso esperar pelo momento certo, pelo emprego ideal, pela oportunidade perfeita. E assim, muitos jovens angolanos crescem à margem da própria coragem, convencidos de que ainda não é tempo de começar. Mas a verdade, aquela que raramente é dita em voz alta, é simples e dura: ninguém começa pronto.
Em Angola, a juventude carrega sonhos maiores do que os recursos disponíveis. Carrega diplomas sem emprego, ideias sem financiamento, talento sem palco. Enfrenta o desemprego, a informalidade, a pressão social, a tentação da desistência e, muitas vezes, o peso silencioso de expectativas familiares que não se conseguem cumprir. Ainda assim, é nesta juventude inquieta que reside a maior força transformadora do país.
Esperar demais, neste contexto, não é prudência. É armadilha. É deixar que o medo se disfarce de cautela e paralise gerações inteiras. A coragem não nasce no conforto, nem na certeza absoluta. A coragem nasce no passo dado com receio, mas dado. É no improviso do quotidiano que o jovem angolano aprende a resistir, a criar soluções, a reinventar-se.
É no zunga que se aprende economia real.
É no pequeno negócio que se aprende gestão.
É no activismo, na arte, na tecnologia e no empreendedorismo social que se aprende cidadania.
O erro, tantas vezes condenado, é afinal um professor severo, mas necessário. Cair faz parte do percurso. Ajustar rotas é sinal de inteligência, não de fraqueza. A juventude não precisa ser perfeita para ser relevante. Precisa ser ousada, activa e consciente do seu papel histórico.
Angola não pode esperar que os seus jovens se sintam totalmente prontos. O país precisa deles em movimento, a tentar, a errar, a aprender e a construir. Porque ficar parado também tem um custo, e esse custo mede-se em sonhos adiados, talentos desperdiçados e futuro comprometido.
Valorizar a juventude é reconhecer que o processo forma mais do que a espera. É criar espaços de oportunidade, mas também incentivar a iniciativa. É compreender que a fé se fortalece na caminhada e que a maturidade nasce da responsabilidade assumida cedo.
No fim, quase sempre acontece o mesmo milagre silencioso: o jovem que teve medo de começar já não é o mesmo depois do primeiro passo. O caminho transforma. O processo lapida. E a Angola que queremos começa, inevitavelmente, nessa juventude que decide avançar mesmo sem todas as respostas.
Porque, às vezes, tudo o que um país precisa não é de jovens mais preparados.
É de jovens mais corajosos para começar.
