Ligar-se a nós

Crónica

Saia do balde dos caranguejos ou morra dentro

Publicado

em

É de chapa velha, enferrujada, herdada desde o tempo do “deixa andar”.

E os caranguejos não vivem no mar. Vivem nos bairros, nos gabinetes, nas repartições públicas, nas empresas, nas famílias e, muitas vezes, até nas igrejas.

Aqui, quando um caranguejo decide estudar mais, dizem logo:
“Estás a pensar que és melhor do que nós?”

Quando resolve abrir um negócio, surge o coro afinado:
“Isso aqui não dá, mano. Sem padrinho não chegas longe.”

E se, por milagre, começa a subir, alguém cochicha:
“Calma, esse está a meter-se onde não é chamado.”

O caranguejo angolano não puxa por maldade pura.
Puxa por hábito.
Por cultura.
Por sobrevivência emocional.

Porque, em Angola, o sucesso alheio dói mais do que a própria pobreza.
A vitória do outro é vista como traição colectiva.
Quem sobe é suspeito.
Quem melhora é arrogante.
Quem pensa diferente “já está estrangeirado”.

O balde angolano é democrático.
Ninguém sobe sozinho, mas todos podem cair juntos.

No serviço público, o caranguejo que quer trabalhar é logo corrigido:
“Não exagera, isso não é teu.”
“Deixa assim, sempre foi feito desse jeito.”

Na empresa, o que chega cedo e sai tarde é apelidado de lambe-botas.
No bairro, o que fala em poupança é chamado de avarento.
Na família, o que sonha alto ouve logo:
“A vida não é assim, aceita.”

Aceitar é a religião oficial do balde.

E atenção.
Ninguém tem medo que você falhe.
Em Angola, o fracasso une.
O problema é você conseguir.

Porque, se você consegue, desmonta o discurso do “não dá”.
Se você sobe, prova que o balde não era prisão. Era apenas zona de conforto.

E isso é imperdoável.

Por isso, quando um caranguejo quase escapa, não arrancam só as garras.
Arrancam a reputação.
Arrancam o nome.
Arrancam a história.

Chamam-lhe oportunista, vendido, arrogante, ingrato.
Tudo para garantir que volte para o fundo e fique quieto.

Mas há uma verdade que o balde odeia.
Nem todo mundo nasceu para viver no fundo.
Alguns nasceram para subir, mesmo sangrando.

Em Angola, subir dói mais porque a corda não é invisível.
É feita de críticas, invejas, ironias e “conselhos” disfarçados de preocupação.

Ainda assim, quem quer mudar de vida precisa aceitar uma coisa.
A subida começa solitária.
E continua solitária por muito tempo.

Não é solidão por orgulho.
É isolamento por sobrevivência.

Porque quem se sente confortável no fundo do balde
sempre vai achar perigoso quem aponta para o topo.

Se você é o caranguejo que decidiu sair, saiba disto.
Vão rir, puxar, falar e tentar quebrar as suas garras.

Mas lembre-se.
O balde nunca produziu líderes, empresários, inovadores ou referências.
Só produziu consenso na mediocridade.

E Angola não precisa de mais caranguejos conformados.
Precisa de gente com coragem de subir,
mesmo sendo chamada de louca no caminho.

Saia do balde.
Com ou sem aplausos.
Com ou sem companhia.

Porque ficar no fundo, isso sim, é que não é opção.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

Continuar a ler
Clique para comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Publicidade

Radio Correio Kianda

Publicidade




© 2017 - 2022 Todos os direitos reservados a Correio Kianda. | Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.
Ficha Técnica - Estatuto Editorial RGPD