Opinião
A Venezuela ensina, Angola não pode ignorar
Os acontecimentos recentemente noticiados sobre uma alegada intervenção dos Estados Unidos da América na Venezuela que culminou com a captura/sequestro do Presidente Nicolás Maduro, a confirmarem se, exigem uma reflexão política profunda, serena e responsável no plano internacional. Num ambiente global marcado por polarização, disputas geopolíticas e circulação acelerada de narrativas simplificadoras, a prudência deixa de ser uma virtude opcional para se tornar um dever político e institucional.
É precisamente nestes momentos que o discurso público deve ser cuidadosamente ponderado, sobretudo quando emitido por figuras com responsabilidade política e influência social. A forma como os factos são interpretados, enquadrados e comunicados pode contribuir para o esclarecimento colectivo ou, pelo contrário, para a confusão, a radicalização e a subversão do entendimento comum.
A intervenção de Adalberto Costa Júnior e o seu enquadramento correcto
Importa deixar absolutamente claro que a reflexão de Adalberto Costa Júnior sobre a situação venezuelana foi feita na sua conta pessoal do Facebook, enquanto exercício legítimo de opinião política e análise crítica. Não se tratou de uma posição oficial do Estado angolano, nem de um apelo à ingerência externa, nem muito menos de uma legitimação da violação da soberania de qualquer país.
A leitura honesta do conteúdo da sua intervenção revela uma preocupação política e institucional com os efeitos da erosão democrática, do bloqueio da alternância e do esvaziamento das instituições. Trata se de uma análise que se inscreve no domínio da reflexão política responsável, sem extrapolações intervencionistas ou alinhamentos com agendas externas.
O passivo histórico de Angola, marcado por décadas de guerra civil fortemente influenciada por interferências estrangeiras, não permite leituras levianas nem interpretações forçadas. Qualquer tentativa de associar a intervenção de Adalberto Costa Júnior à promoção de soluções externas ignora deliberadamente esse passado e deturpa o sentido do seu discurso.
A erosão institucional como raiz estrutural das crises políticas
A situação venezuelana, tal como sublinhado na reflexão em causa, não resulta de um acontecimento isolado. É consequência de um processo prolongado de enfraquecimento institucional, concentração excessiva de poder, instrumentalização da Constituição e bloqueio sistemático da alternância democrática.
Norberto Bobbio lembra que a democracia não se esgota no acto eleitoral, mas exige regras claras, limites ao poder e instituições capazes de funcionar com autonomia. Quando esses elementos são progressivamente neutralizados, o sistema político perde capacidade de auto correcção e abre espaço para crises profundas. Samuel Huntington acrescenta que regimes que recusam a alternância tendem a perder legitimidade interna e a caminhar para o isolamento internacional.
Estas constatações pertencem ao domínio da teoria política e da análise institucional. Não configuram, em si mesmas, qualquer defesa de intervenção externa, mas sim um alerta sobre os riscos internos que ameaçam a estabilidade dos Estados.
Discurso político, elites e responsabilidade no espaço público
Quando as instituições se fragilizam, o discurso político assume um papel central na preservação ou na deterioração da coesão social. Narrativas inflamadas, leituras descontextualizadas e interpretações mal intencionadas podem subverter o entendimento colectivo e empurrar a sociedade para posições extremadas.
Guillermo O’Donnell advertia que, em contextos de fragilidade institucional, a linguagem política pode acelerar processos de ruptura. Por isso, as elites políticas têm uma responsabilidade acrescida de prudenciar e depurar os seus discursos, sobretudo em plataformas digitais, onde o alcance é imediato e o impacto amplificado.
Neste sentido, é intelectualmente desonesto e politicamente irresponsável atribuir a uma reflexão ponderada, feita num espaço pessoal de comunicação, intenções que ela não contém. A maturidade democrática exige leitura contextualizada, boa fé interpretativa e respeito pelo histórico político de quem se pronuncia.
Soberania nacional e limites inultrapassáveis da intervenção externa
O princípio da soberania continua a ser um dos pilares centrais do Direito Internacional contemporâneo. Reconhecer falhas democráticas internas não equivale a defender intervenções estrangeiras. Hedley Bull sustenta que a ordem internacional depende do respeito mútuo entre Estados soberanos, mesmo em contextos de divergência ideológica profunda.
A experiência histórica demonstra que intervenções externas, frequentemente justificadas em nome da democracia ou dos direitos humanos, escondem interesses estratégicos e geopolíticos. Joseph Stiglitz e John Mearsheimer sublinham que as grandes potências actuam prioritariamente com base nos seus próprios interesses nacionais, sendo a retórica moral muitas vezes instrumental.
Normalizar discursos que relativizam a soberania, mesmo por via de interpretações forçadas, é abrir precedentes perigosos, sobretudo para países com trajectórias históricas marcadas por conflitos induzidos externamente.
Angola, memória histórica e dever de prudência colectiva
Angola carrega um passivo histórico pesado. Décadas de guerra civil demonstraram de forma trágica os custos humanos, sociais e económicos da interferência externa e da instrumentalização de conflitos internos. Esta memória colectiva impõe responsabilidade acrescida a todos os actores políticos, independentemente da sua posição partidária.
Alexis de Tocqueville lembrava que a democracia depende não apenas das instituições, mas também dos hábitos, da cultura política e da linguagem pública. Num país com memória de guerra, a prudência discursiva não é sinal de fraqueza, mas de maturidade e sentido de Estado.
É neste quadro que deve ser compreendida a intervenção de Adalberto Costa Júnior. Longe de incentivar ingerências externas, ela remete, de forma implícita, para a necessidade de os próprios sistemas políticos preservarem os seus mecanismos internos de legitimidade e correcção democrática.
Neutralidade responsável e liderança política consciente
A neutralidade, enquanto postura política, não significa indiferença nem omissão. Significa responsabilidade, disciplina discursiva e compromisso com a estabilidade nacional. Ser neutro é recusar o papel de atiçador de conflitos, rejeitar narrativas maniqueístas e evitar alinhamentos automáticos que possam comprometer o interesse nacional.
A liderança política responsável reconhece problemas, alerta para riscos e defende princípios democráticos, sem transformar a crítica em instrumento de desestabilização ou em legitimação de agendas externas. A neutralidade responsável preserva a coesão social, protege a soberania e mantém abertos os canais de diálogo.
Conclusão: A lição essencial e o caminho a seguir
A verdadeira lição da Venezuela não está na eventual queda de líderes, mas no alerta claro de que o poder que se afasta da legitimidade democrática fragiliza o Estado e expõe a soberania nacional. Ensina, igualmente, que discursos políticos irresponsáveis, ou deliberadamente distorcidos, aceleram crises e reduzem as possibilidades de solução interna.
Como defendia Frantz Fanon, a libertação política genuína constrói se a partir de dentro, com consciência colectiva, protagonismo nacional e responsabilidade histórica. Angola, consciente do seu passado e dos seus desafios, deve continuar a afirmar que os problemas dos povos resolvem-se internamente, com prudência discursiva, maturidade política e verdadeiro sentido de Estado.
Essa é a exigência do momento. Essa é a responsabilidade das elites. E essa deve ser a linha que orienta o entendimento colectivo.
