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Opinião

Partidos políticos em Angola: Género não é quota, é competitividade

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A política angolana encontra-se, neste início da segunda metade da década de 2020, diante de uma evidência estrutural que já não pode ser ignorada. A configuração social e demográfica do país exige uma profunda revisão das estratégias partidárias. Não apenas por razões ideológicas, mas porque a própria estrutura da população, maioritariamente jovem e feminina, impõe novos parâmetros de competitividade política.

Os dados do Recenseamento Geral da População e Habitação de 2024 indicam que Angola possui cerca de 36,6 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 51 por cento são mulheres e mais de 60 por cento têm menos de 25 anos. Trata-se de um perfil demográfico marcadamente jovem e com predominância feminina no conjunto da população e, consequentemente, no eleitorado potencial. Estes números não são meras estatísticas. Representam um campo de disputa política real, ainda pouco explorado de forma estratégica pelos partidos.

É neste contexto que a liderança de Bela Malaquias, presidente do Partido Humanista de Angola, deve ser analisada não como um facto isolado, mas como um sinal político relevante de transformação silenciosa do sistema.

1. Da representação simbólica à hegemonia competitiva

A diferença entre presença simbólica e relevância política efectiva reside na capacidade de disputar e influenciar a agenda pública. Antonio Gramsci lembra que hegemonia não é apenas domínio institucional, mas capacidade de direcção moral e intelectual da sociedade. A liderança de Bela Malaquias insere-se precisamente nesse campo. Ao afirmar-se como mulher à frente de um partido político nacional, ela não ocupa apenas um lugar formal, mas desafia padrões históricos de poder marcados pela masculinização da política angolana.

A sua afirmação pública transforma o género de atributo secundário em elemento de disputa política real. Como sustenta Joan Scott, o género é uma categoria central para a análise das relações de poder, pois revela quem decide, quem lidera e quem permanece à margem. Neste sentido, Bela Malaquias não representa apenas uma mulher na política, mas a emergência de um novo posicionamento político feminino que exige reconhecimento e competição em pé de igualdade.

2. Género como campo de poder e não como concessão

Durante décadas, a questão do género em Angola foi tratada de forma periférica. Mulheres foram integradas em estruturas partidárias sobretudo como símbolo de inclusão, raramente como decisoras estratégicas. Esta lógica confirma a análise de Pierre Bourdieu sobre o poder simbólico, segundo a qual a dominação se mantém quando é aceite como natural. A liderança feminina real rompe com essa naturalização.

Bela Malaquias desloca o género do plano da concessão para o plano da disputa. A sua autoridade não deriva de quotas, mas de posicionamento político, visibilidade pública e consistência discursiva. Hannah Arendt recorda que o poder nasce da acção colectiva e da capacidade de agir em conjunto. A liderança de Bela Malaquias, nesse sentido, não é apenas individual, mas representa a possibilidade concreta de reorganização do espaço político angolano.

3. Demografia, juventude e pressão política

A estrutura demográfica de Angola exerce uma pressão silenciosa sobre o sistema político. Uma população maioritariamente jovem tende a questionar modelos tradicionais de autoridade e a exigir maior autenticidade das lideranças. Saskia Sassen sublinha que a demografia molda as dinâmicas de poder, porque define quem conta e quem influencia as decisões colectivas.

Com mulheres a representarem a maioria da população e jovens a constituírem a maioria relativa, torna-se politicamente incoerente manter partidos dirigidos quase exclusivamente por elites masculinas envelhecidas. Esta desconexão entre a estrutura social e a estrutura de poder fragiliza a legitimidade dos partidos e reduz a sua capacidade de mobilização eleitoral.

4. O défice estratégico dos partidos tradicionais

Apesar do discurso recorrente sobre igualdade de género, a maioria dos partidos angolanos continua a tratar a liderança feminina como elemento decorativo. Mulheres aparecem nas listas eleitorais, nos comícios e nos materiais de campanha, mas raramente nos centros reais de decisão partidária. Robert Michels já alertava para esta tendência ao falar da lei de ferro da oligarquia, segundo a qual as organizações políticas tendem a concentrar o poder em elites fechadas e resistentes à renovação.

Nancy Fraser acrescenta que o reconhecimento simbólico sem redistribuição efectiva do poder resulta apenas em encenação política. É precisamente aqui que a liderança de Bela Malaquias se diferencia. Ela demonstra que é possível ultrapassar a representação formal e transformar o género num factor efectivo de competitividade política.

5. 2027 e o imperativo do género competitivo

As eleições gerais de 2027 ocorrerão num contexto social mais urbano, mais conectado e mais crítico. O eleitorado jovem e feminino já não se mobiliza apenas por lealdades históricas ou discursos abstractos. Procura identificação, coerência e liderança com rosto humano.

Promover o género competitivo significa formar mulheres para liderar estratégias políticas, garantir-lhes acesso real aos centros de decisão, permitir autonomia discursiva e aceitar a redistribuição interna do poder partidário. Como defende Amartya Sen, o desenvolvimento político está directamente ligado à expansão das liberdades reais. Partidos que não ampliem a liberdade política feminina limitarão a sua própria capacidade de crescimento e sobrevivência eleitoral.

6. Conclusão: disputar ou ficar para trás

A liderança de Bela Malaquias deve ser lida como um aviso estratégico. A política angolana não rejeita mulheres líderes. Rejeita, isso sim, lideranças artificiais e discursos vazios. A hegemonia competitiva do género feminino deixou de ser uma hipótese teórica e passou a ser uma realidade em construção.

Em 2027, os partidos angolanos enfrentarão uma escolha clara. Ou disputam seriamente o género e a juventude como campos centrais de poder político, ou permanecerão presos a modelos esgotados, cada vez mais distantes da sociedade real.

Bela Malaquias já ocupa esse espaço.

Os outros partidos terão de decidir se pretendem competir ou apenas observar.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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