Opinião
Venezuela: quando a captura de um Presidente abala a ordem regional
A captura do Presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, ainda envolta em versões contraditórias e disputas narrativas, marca um dos episódios mais graves da política latino-americana recente. Independentemente da confirmação total dos factos, o simples anúncio desta operação já produziu efeitos políticos profundos, revelando as fragilidades da Venezuela e as tensões latentes no sistema internacional.
Para os Estados Unidos, Maduro sempre foi mais do que um adversário ideológico. Ele representa um problema estratégico triplo: segurança, geopolítica e política interna. Washington acusa o regime venezuelano de ligações estruturais ao narcotráfico internacional, usando essa narrativa para justificar sanções, isolamento diplomático e agora uma possível ação direta. Paralelamente, a Venezuela tornou-se um ponto sensível na disputa global, acolhendo interesses russos, chineses e cubanos num país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Para os EUA, tolerar esse alinhamento no seu espaço geopolítico tradicional é visto como uma falha estratégica.
No plano interno venezuelano, a eventual remoção de Maduro não significa, automaticamente, estabilidade ou democracia. Pelo contrário. O sistema político venezuelano é altamente personalista e dependente de equilíbrios informais entre elites militares, partidárias e económicas. A saída abrupta do líder abre um perigoso vácuo de poder, com risco real de fragmentação institucional, confrontos internos e escalada da repressão. A história recente demonstra que transições impostas de fora raramente produzem estabilidade duradoura.
A oposição venezuelana encontra-se igualmente numa posição delicada. Embora possa ganhar reconhecimento internacional, corre o risco de perder legitimidade interna se for percecionada como beneficiária direta de uma intervenção externa. Em sociedades politicamente polarizadas, a defesa da soberania tende a mobilizar apoios mesmo entre setores críticos do regime.
No plano regional, os impactos são imediatos. Países vizinhos como a Colômbia e o Brasil enfrentam o risco de novos fluxos migratórios, pressão sobre fronteiras e instabilidade económica, sobretudo no setor energético. A América Latina volta a dividir-se entre defensores da não-ingerência e os que aceitam soluções de força como atalho político, enfraquecendo ainda mais os mecanismos regionais de concertação.
Para Angola e para África, este episódio deve ser lido como um alerta estratégico. Estados com instituições frágeis, excessivamente personalistas e dependentes de lideranças únicas tornam-se vulneráveis à pressão externa e a soluções impostas. A lição é clara: estabilidade política constrói-se com instituições sólidas, alternância legítima e soluções internas, não com intervenções externas travestidas de moralidade política.
Mais do que a queda de um homem, o que está em jogo na Venezuela é o respeito pelos princípios da soberania, do direito internacional e da estabilidade regional. E, como a história ensina, quando esses princípios são relativizados, quem paga o preço final são sempre os povos.
