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Crónica

Quando o silêncio também é uma posição

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Na sua curta passagem por Lisboa, o líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, protagonizou um momento que não passou despercebido aos atentos aos bastidores da política africana. Questionado pelo jornalista angolano Victor Hugo Mendes sobre a situação política na Guiné-Bissau, Adalberto respondeu, de forma jocosa, que lhe estavam a pedir para falar mal de um amigo.

Segundo o próprio, Umaro Sissoco Embaló é seu amigo pessoal e sempre lhe foi próximo. Adalberto falou, falou… mas acabou por não dizer nada. Enrolou. Hesitou. E perdeu uma belíssima oportunidade de dar o seu “show” de verdadeiro democrata, como já nos habituou noutras circunstâncias.

O presidente da UNITA revelou visível dificuldade em condenar, de forma clara e inequívoca, as manobras de captura do Estado que têm sido protagonizadas pelo seu amigo na Guiné-Bissau. Foi um silêncio ruidoso, daqueles que dizem muito mais do que mil palavras.

Perdeu, assim, uma oportunidade política rara: a de deixar claro o seu posicionamento pessoal e o do partido que dirige sobre a grave crise institucional guineense. Quando se proclama democrata, não pode haver ambiguidades. A defesa da democracia não pode ser selectiva, nem condicionada por amizades pessoais ou conveniências políticas.

Não se pode ter dois pesos e duas medidas. Ou se é coerente, ou se abdica da autoridade moral para falar de democracia, Estado de direito e boa governação.

Diga-se, contudo, que a UNITA já nos habituou a alianças paradoxais e a silêncios estratégicos. Basta recordar as suas relações históricas com o regime do apartheid e, mais recentemente, as aproximações políticas ao Chega, para perceber que a coerência nem sempre foi uma marca distintiva do partido.

Nos bastidores do poder, o silêncio também é uma posição. E, neste caso, foi uma posição que deixou muito a desejar.

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