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Análise

Quando o petróleo muda de dono sem mudar de discurso

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O comentário de Marco Rubio sobre os petroleiros venezuelanos apreendidos não é apenas uma declaração política. É um retrato cru da geopolítica contemporânea, onde a soberania se dilui em nome da “boa gestão” e da “protecção do povo”. Rubio, ao afirmar que os EUA vão obter entre 35 e 57 milhões de barris de petróleo e administrar esse dinheiro para beneficiar os venezuelanos, ele não está a fazer uma promessa moral, está a anunciar uma estratégia de poder.

Vamos ser claros: isto não é ajuda humanitária, nem cooperação desinteressada. É controlo. Controlo do principal activo económico da Venezuela, num momento em que o país está fragilizado, sancionado e com margem de manobra quase nula. O petróleo, que sempre foi a espinha dorsal do Estado venezuelano, passa a ser gerido externamente, sob o argumento de que o próprio Estado falhou.

Na lógica dura das relações internacionais, isto chama-se ‘realpolitik’. Os EUA sabem que quem controla a energia controla receitas, influência e, no limite, decisões políticas. A narrativa de “beneficiar o povo” funciona como verniz ético para uma prática antiga: a tutela económica de Estados enfraquecidos. Já vimos este filme antes, apenas com outros actores e outras palavras.

O mais interessante e perigoso é a normalização do discurso. Falar abertamente em administrar os recursos de um outro país deixou de ser escândalo e passou a ser apresentado como solução técnica. Não se discute soberania, discute-se eficiência. Não se fala de autodeterminação, fala-se de gestão responsável. E é aqui que o jogo fica sério.

Nada disto absolve os erros internos da Venezuela, nem ignora a corrupção e a má governação que ajudaram a cavar o buraco. Mas também não legitima que uma potência externa se apresente como curadora permanente dos recursos alheios.

No fim do dia, não se trata apenas de barris de petróleo. Trata-se de quem decide o futuro económico de um país e com que legitimidade. Quando grandes potências dizem “é para o bem do povo”, a História ensina uma coisa simples: convém ler as letras pequenas.

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