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Análise

Quando o líder prepara a fuga: Irão entre o medo interno e a pressão externa

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O rumor de que o aiatolá Ali Khamenei terá preparado rotas de fuga para a Rússia, levando consigo família e núcleo duro do regime, é mais do que um detalhe curioso de bastidores: é um sintoma clássico de regimes que já não confiam totalmente no próprio chão que pisam. Quando um líder supremo planeia a saída, mesmo que “preventiva”, o poder deixa de ser absoluto e passa a ser condicional. A história ensina e sem pedir licença que o fim dos regimes autoritários raramente começa com tanques nas ruas; começa com malas discretas prontas num hangar.

O Irão vive uma tensão estrutural antiga: uma teocracia rígida a governar uma sociedade jovem, urbana, conectada e cansada. Os Protestos não são novidade, mas a persistência e a brutalidade da repressão corroem algo essencial: a lealdade interna. O momento verdadeiramente perigoso para qualquer regime não é a multidão na rua; é a dúvida dentro das forças de segurança. Quando surgem deserções, o poder passa do medo para o pânico. E pânico no topo gera decisões erráticas.

É neste tabuleiro instável que entra Donald Trump, a bordo do Air Force One, a avisar que os EUA “observarão de perto” e que o Irão “será duramente atingido” se os manifestantes continuarem a morrer. Trump joga o seu jogo favorito: linguagem dura, ambiguidade estratégica e pressão mediática máxima. Não é diplomacia clássica, é diplomacia de choque. Funciona? Às vezes. Mas também pode fechar portas, empurrar Teerão para uma postura ainda mais defensiva e acelerar a lógica do “cerco externo”, tão útil à propaganda do regime iraniano.

A Rússia surge aqui como refúgio simbólico e estratégico. Moscovo acolhe aliados em apuros não por altruísmo, mas por cálculo: cada líder dependente é uma ficha a mais no xadrez contra o Ocidente. Se Khamenei realmente considera essa opção, isso revela duas coisas: a percepção de que o risco é real e a consciência de que a legitimidade interna já não basta.

O mundo assiste a um possível ponto de inflexão. A queda do regime iraniano não é inevitável, mas a sua fragilidade tornou-se visível. E quando a fragilidade se torna pública, o poder começa a escorrer pelos dedos. A grande ironia é esta: regimes que governam pelo medo acabam reféns dele. O Irão pode estar a aproximar-se desse momento histórico em que o futuro deixa de ser controlável, nem por éditos religiosos, nem por ameaças externas. A política internacional não perdoa líderes que já pensam na saída antes de resolverem a casa.

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