Crónica
O país que colhe o que insiste em plantar
Em Angola, a vida também não se constrói ao acaso. Ela cresce à sombra das escolhas feitas longe dos discursos, nos quintais da consciência onde ninguém aplaude nem fiscaliza. Aqui, como em qualquer lugar, cada gesto é uma semente. Mas entre nós, o problema não é a falta de terra. É a insistência em semear descuido e esperar milagres.
Há quem queira colher prosperidade com mãos apressadas, sem preparar o chão. Quer-se desenvolvimento sem trabalho sério, riqueza sem produção, mudança sem sacrifício. Ferimos o solo com pressa, arrancamos o que ainda nem criou raiz e depois culpamos o clima, o passado ou o outro. Nunca as nossas próprias mãos.
Enquanto isso, poucos são os que cavam devagar. Poucos os que entendem que Angola não se levanta com atalhos, mas com profundidade. Que não há instituições fortes sem carácter. Que não há futuro sólido construído sobre improviso. A raiz, aqui, precisa de tempo, de paciência e, sobretudo, de verdade.
O amor à pátria raramente se prova em palavras bonitas. Prova-se na fila respeitada, no cargo exercido com ética, no bem público tratado como se fosse próprio. O perdão que precisamos praticar não é o esquecimento cúmplice, mas a reconciliação com responsabilidade. Sem justiça, a terra continua envenenada.
Não é o que desejamos que define a colheita nacional. É o que repetimos todos os dias. A vida colectiva observa os nossos hábitos com mais atenção do que os nossos discursos. Aprende quem somos pela forma como lidamos com o pequeno poder, com o dinheiro fácil, com a tentação de passar à frente.
Cultivar Angola exige coragem. Exige remover pedras antigas como a corrupção normalizada, o medo de denunciar, a cultura do silêncio conveniente. Exige encarar a terra escura do nosso próprio coração, onde muitas vezes moram a resignação e o conformismo disfarçados de prudência.
Mas é ali que nascem os frutos verdadeiros. Nada floresce onde só há negação. Não há desenvolvimento onde a responsabilidade é sempre do outro. Não há futuro onde o presente é tratado com desleixo.
No fim, Angola não erra. A vida nacional apenas devolve, em forma de progresso lento ou de crises repetidas, aquilo que tivemos ou não tivemos coragem de cuidar.
