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Análise

Irão sob pressão total: protestos internos, cerco externo e o risco real de uma escalada preventiva

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Os acontecimentos em Abdanan deixam de ser apenas um sinal de instabilidade social e passam a integrar um quadro mais vasto e perigoso. As preocupações manifestadas por Israel quanto a um eventual ataque iraniano não eram infundadas. Pelo contrário, à medida que Teerão enfrenta simultaneamente contestação interna e pressão externa crescente, o espaço de manobra estratégica do regime vai-se estreitando.

O recente comunicado do Conselho de Defesa do Irão é revelador e deve ser lido com atenção geopolítica, não como retórica vazia. Ao afirmar que o Irão não se limita a responder “após a ocorrência de um ataque” e que considera “sinais concretos de ameaça como parte da equação de segurança”, Teerão está a abrir explicitamente a porta à doutrina do ataque preventivo. Isto representa uma inflexão relevante: o regime sinaliza que poderá agir primeiro se interpretar o ambiente estratégico como hostil e irreversível.

Este discurso surge num momento crítico. Internamente, os protestos espalham-se para províncias periféricas, denunciando uma crise de legitimidade social e económica que já não pode ser contida apenas com repressão seletiva. Externamente, o Irão enfrenta sanções, isolamento diplomático, pressão militar indireta e a perceção de cerco por parte dos EUA e de Israel. Historicamente, regimes sob dupla pressão tendem a externalizar o conflito como forma de recompor coesão interna e reafirmar autoridade.

É aqui que o risco aumenta. Um confronto iniciado pelo Irão ainda que apresentado como legítima defesa permitiria ao regime redefinir a narrativa interna, recentrar o discurso na soberania e silenciar, temporariamente, a contestação social. Do ponto de vista estratégico, seria uma aposta de alto risco: reforça a dissuasão, mas pode desencadear uma escalada regional de consequências imprevisíveis.

Em síntese, o Irão parece estar a entrar numa fase em que não agir também tem custos. Entre ceder internamente e recuar externamente, Teerão poderá optar por demonstrar força. Não por confiança, mas por falta de alternativas.

Quando regimes começam a falar abertamente de linhas vermelhas e ataques preventivos, não estão a sinalizar estabilidade, estão a revelar vulnerabilidade estratégica.

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