Sociedade
“Gestão hídrica exige mais que intervenção sectorial”, alerta especialista
O engenheiro hidráulico Francisco Lopes alertou, em declarações à Rádio Correio da Kianda, para o risco crescente de inundações na capital do país, defendendo a necessidade urgente de reestruturação das bacias hidrográficas que desaguam em Luanda, face à expansão urbana desordenada e à perda das zonas naturais de infiltração.
Segundo o especialista, a chamada “ponte molhada”, localizada na Praia do Sol, depois da zona do Patriota, recebe cerca de 65% de um volume estimado em 650 mil metros cúbicos por segundo provenientes da Bacia do Kambamba. Este caudal significativo, explicou, acaba por convergir para o mar, pressionando áreas urbanas vulneráveis, sobretudo na zona da Praia do Bispo e na Marginal, onde não existe capacidade suficiente de retenção ou drenagem.
Francisco Lopes sublinhou que a expansão urbana tem eliminado antigas zonas de amortização e infiltração de águas pluviais, substituídas por bairros e infraestruturas impermeabilizadas. “Quanto maior for a expansão urbana, maior é a quantidade de água que chega à foz”, advertiu, acrescentando que o fenómeno aumenta exponencialmente o risco de submersão de áreas costeiras.
O engenheiro comparou a situação a cenários recentes registados em países como Moçambique e Portugal, onde eventos extremos associados a chuvas intensas provocaram cheias urbanas e prejuízos significativos.
No plano técnico, defendeu que a gestão do território e dos recursos hídricos não deve limitar-se à actuação do Ministério da Energia e Águas, mas envolver instituições especializadas em ordenamento do território e estudos hidrográficos, capazes de antecipar cenários e planear infraestruturas de contenção.
Francisco Lopes esclareceu ainda que as águas que atingem o litoral resultam de precipitações registadas no interior do país. Explicou que Luanda recebe contribuições hídricas provenientes de províncias como o Bié e o Huambo, enquanto outras regiões costeiras dependem de bacias que se estendem por diferentes pontos do território nacional, reflectindo a complexidade da divisão hidrográfica angolana.
Apesar de, localmente, as chuvas parecerem escassas, o engenheiro recordou que o período até abril é tradicionalmente chuvoso, com registos que podem atingir picos de 100 milímetros numa única precipitação. Em Luanda, advertiu, mesmo chuvas de 40 a 60 milímetros são suficientes para provocar caos urbano, devido à insuficiência do sistema de drenagem e à ocupação desordenada do solo.
O alerta do especialista chama para o debate sobre a necessidade de políticas públicas integradas de planeamento urbano, reforço das infraestruturas de drenagem e proteção ambiental, sob pena de a capital continuar vulnerável a episódios de inundação cada vez mais frequentes e intensos.
