Análise
Geopolítica africana – “Um olhar sobre o novo regionalismo Africano AES”
A compreensão da Aliança dos Estados do Sahel (AES) como novo regionalismo, exige uma análise do contexto histórico recente e das dinámicas estruturais que caracterizam a região. O Sahel tem sido marcada por instabilidade política, fragilidade institucional, dependência económica externa e crescente contestação à influência estrangeira por décadas.
Porém, entre 2021 e 2023, três países centrais do Sahel — Mali, Burkina Faso e Níger — registaram golpes de Estado liderados por militares jovens e emergentes. Em 2021, o Mali foi palco de um golpe conduzido pelo general Assimi Goïta, então com 38 anos. No ano seguinte, a 30 de Setembro de 2022, o Burkina Faso assistiu à tomada do poder pelo capitão Ibrahim Traoré, de 34 anos. Finalmente, a 26 de Julho de 2023, o general Abdourahamane Tchiani liderou o golpe de Estado no Níger. Estes acontecimentos foram justificados pelos novos dirigentes como resposta à má governação, à insegurança persistente e à percepcionada submissão dos governos anteriores a interesses estrangeiros, em detrimento das necessidades das populações locais.
Desde a ascensão ao poder destes líderes militares, observa-se uma política de ruptura estrutural a nível doméstico, regional e internacional. No plano interno, os novos regimes implementaram reformas económicas orientadas para o reforço da soberania nacional e do controlo estatal dos recursos estratégicos.
No Mali, o Estado procedeu à nacionalização parcial do sector mineiro, à revisão de contratos com empresas multinacionais e à recuperação de receitas fiscais em atraso, obtendo cerca de 1,2 mil milhões de dólares em 2024. Paralelamente, foram nacionalizadas minas estratégicas, como Morila e Yatéla, e a participação do Estado nos projetos mineiros aumentou de 20% para 35%, com a possibilidade de alcançar 45% através de aquisições adicionais.
No Burkina Faso, as reformas centraram-se na substituição de modelos económicos liberalizados por uma abordagem estatizante, sobretudo no sector aurífero. As políticas adoptadas incluem a nacionalização de minas, a proibição da exportação de ouro bruto, a construção de refinarias nacionais e a promoção da industrialização local nos sectores agrícola e tecnológico. Adicionalmente, o governo investiu significativamente em infraestruturas sociais e económicas, como hospitais, escolas, estradas e unidades industriais. Em 2024, a produção de cereais aproximou-se de seis milhões de toneladas e a economia registou um crescimento de 3,7%, acompanhada pela liquidação da dívida externa, avaliada em 4,7 mil milhões de dólares.
No Níger, o governo liderado por Abdourahamane Tchiani intensificou a intervenção estatal na economia, implementando medidas como a obrigatoriedade do consumo de produtos nacionais por entidades públicas e privadas, a redução do preço do cimento e a nacionalização parcial da produção petrolífera. O aumento das receitas provenientes do petróleo tem sido canalizado para a modernização das infraestruturas de transporte, energia e redes digitais, contribuindo para um crescimento económico significativo, reconhecido por instituições internacionais como o Banco Mundial em 2025.
No plano regional, a suspensão do Mali, do Burkina Faso e do Níger da União Africana e da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) acelerou a criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES), formalmente estabelecida em 2023. Apesar da sua recente constituição, a AES alcançou progressos relevantes, nomeadamente a criação do Banco Confederal de Investimento e Desenvolvimento (BCID-AES), a adopção de um passaporte comum, a formação de uma força militar conjunta e o lançamento de um canal televisivo institucional, a AES TV.
A organização projecta ainda, para 2026, a introdução de uma moeda única. Entretanto, a dinâmica da AES tem suscitado interesse de outros Estados da região. Países como o Togo e o Chade manifestaram intenção de adesão, enquanto a Guiné-Conacri, igualmente sob governação militar, expressou abertura para integrar a aliança. Paralelamente, Estados como o Gana e o Senegal têm demonstrado disponibilidade para o diálogo no âmbito da CEDEAO, sinalizando possíveis reconfigurações do equilíbrio político regional. Rússia e China tem sido os principais parceiros internacionais, tendo acordos em areas como defesa, tecnologia, educação.
