Crónica
Em Terra de procedimentos, pensar é excesso
Em Angola, sempre que alguém decide pensar fora da fila, a primeira reacção institucional é simples e quase automática: “Esse é louco.”
Louco por querer fazer diferente.
Louco por não aceitar o “sempre foi assim”.
Louco por acreditar que o país pode funcionar melhor.
Na imagem, a fila é longa. Vêm os agentes da ordem, da norma, do procedimento, do carimbo, do crachá e do “volta amanhã”. Todos de olhar perdido, segurando papéis, telemóveis e regulamentos como quem segura amuletos contra o futuro. Olham para o “louco” sentado, tranquilo, a tocar violão, enquanto o dinheiro, símbolo da atenção, do poder e da validação tardia, cai-lhe aos pés.
E alguém pergunta, aflito: “O que estamos a fazer aqui?”
Boa pergunta. Talvez estejam a fazer o que sempre fizeram: esperar que o louco prove que tinha razão.
Em Angola, o agente de mudança começa sempre sozinho. Não tem gabinete, não tem orçamento, não tem protecção política. Tem apenas ideias, convicção e uma teimosia quase patológica. Por isso chamam-lhe louco.
Quando fala de inovação, dizem que é estrangeirado.
Quando fala de transparência, dizem que é perigoso.
Quando fala de mérito, dizem que é ingénuo.
Quando fala de desenvolvimento sustentável, dizem que não conhece a realidade do país, como se a realidade fosse desculpa para a estagnação.
O mais curioso é que, com o tempo, os mesmos que chamavam o visionário de louco começam a copiar-lhe o discurso. Criam departamentos, programas, slogans e conferências para explicar, com palavras caras, aquilo que o “louco” dizia de forma simples anos antes, sem ser ouvido.
A história repete-se:
Primeiro ridicularizam.
Depois ignoram.
Mais tarde regulamentam.
E, no fim, institucionalizam.
Em Angola, o louco abre picadas no mato fechado da burocracia, enquanto os sábios chegam depois, de estrada asfaltada, em viatura de protocolo, a inaugurar aquilo que nunca ousaram iniciar.
Por isso, se fores chamado de louco por querer mudar a tua comunidade, o teu município ou o teu país, não te ofendas. Respira fundo, afina o violão e continua a tocar.
Porque, mais cedo ou mais tarde, a fila vai andar e todos acabarão exactamente onde tu começaste.
E quando perguntarem novamente “o que estamos a fazer aqui?”, a resposta será óbvia:
Estamos a seguir o caminho que o louco abriu.
