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Opinião

Angola produz jovens, não produz empregos

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Os dados mais recentes sobre o mercado de trabalho em Angola, divulgados na Folha de Informação Rápida (FIR) do Inquérito ao Emprego em Angola (IEA), referentes ao 3.º trimestre de 2025, voltaram a colocar o desemprego no centro do debate público. A análise foi apresentada no artigo de opinião “Milagre ou Miragem? Juventude quer trabalhar, economia não responde”, da autoria de Fernandes Wanda, publicado no jornal Expansão, a 24 de Dezembro de 2025, com base em informação oficial do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Segundo o INE, a taxa de desemprego recuou de 28,8% no 2.º trimestre para 26,9% no 3.º trimestre de 2025, após uma actualização metodológica que incorporou dados do último Censo da População e Habitação. A taxa de actividade fixou-se em 88,1%, ligeiramente abaixo dos 89,0% registados no trimestre anterior, enquanto o Índice de Sofrimento Económico, indicador que combina desemprego e inflação para medir a pressão sobre o bem-estar das famílias, registou uma redução de 3,4 pontos percentuais face ao 2.º trimestre, ainda que a um ritmo mais lento.

Contudo, como alerta Joseph Stiglitz (2012), “os indicadores macroeconómicos podem melhorar sem que a realidade social acompanhe essa melhoria”. No caso angolano, a descida do desemprego parece reflectir mais um ajustamento estatístico do que uma transformação efectiva da base produtiva da economia.

1. Uma Estrutura Económica que Não Cria Emprego

A distribuição sectorial do emprego, também apresentada pelo INE e destacada no artigo do Expansão, revela uma economia excessivamente concentrada em sectores de baixa produtividade. A agricultura absorve 41,3% da força de trabalho, mantendo-se como o principal empregador do país. O comércio representa 22,3%, enquanto sectores estruturantes para o desenvolvimento económico têm um peso reduzido: Indústria, Energia e Água empregam apenas 7,3%, e a construção 3,9%.

Este padrão confirma o diagnóstico clássico de Arthur Lewis (1954) sobre economias dualistas, nas quais a maior parte da população activa permanece em sectores tradicionais, com baixos rendimentos e reduzida capacidade de gerar crescimento sustentável. Como reforça Dani Rodrik (2016), “sem diversificação produtiva e industrialização, o desemprego torna-se estrutural e persistente”.

2. Juventude Activa, Economia Estagnada

Um dos méritos centrais do artigo de Fernandes Wanda (Expansão, 24/12/2025) é desmontar a narrativa de que a juventude angolana não quer trabalhar. Os dados do IEA mostram que, na faixa etária dos 15 aos 24 anos, a taxa de actividade aumentou de 80,9% para 84,1%. Entre os 25 e os 54 anos, a taxa de actividade ultrapassa os 90%, evidenciando elevada disponibilidade para o trabalho.

Estes números confirmam que o problema não reside na falta de vontade dos jovens, mas na incapacidade do sector formal em absorver essa força de trabalho. Como sublinha Amartya Sen (1999), “o desemprego não é apenas a ausência de rendimento, mas a negação de capacidades, dignidade e inclusão social”.

3. Diagnóstico: Crescimento Sem Emprego

A economia angolana enfrenta um fenómeno de jobless growth, em que melhorias estatísticas ou crescimento pontual não se traduzem em criação efectiva de postos de trabalho. Mesmo com a redução da taxa de desemprego para 26,9% e a ligeira melhoria do Índice de Sofrimento Económico, a realidade quotidiana continua marcada pela informalidade, subemprego e fraca mobilidade social.

De acordo com Blanchard e Johnson (2013), economias que não alinham crescimento económico com políticas activas de emprego tendem a aprofundar desigualdades e frustrações sociais, sobretudo entre os jovens.

4. Estratégias para Inverter o Desemprego Estrutural

Os dados do INE e a análise publicada no Expansão apontam para a necessidade urgente de uma resposta estratégica do Estado e do sector privado. Entre as medidas estruturais capazes de inverter o actual quadro destacam-se:

1. Industrialização orientada para o emprego, apostando em agro-indústria, transformação alimentar, materiais de construção e energias renováveis, sectores intensivos em mão-de-obra;

2. Políticas activas de emprego juvenil, com estágios remunerados, formação técnico-profissional alinhada ao mercado e incentivos fiscais às empresas que empreguem jovens;

3. Transformação da agricultura de subsistência em cadeias de valor, aumentando produtividade, rendimento e libertando mão-de-obra para sectores de maior valor acrescentado, conforme defendido por Simon Kuznets (1973);

4. Fortalecimento das micro, pequenas e médias empresas, facilitando acesso ao crédito, reduzindo burocracia e promovendo inovação, reconhecendo o seu papel central na criação de emprego, como sublinha Schumpeter (1942).

5. Conclusão: Estatísticas Não Substituem Políticas Públicas

A informação divulgada pelo INE, analisada por Fernandes Wanda no jornal Expansão (24 de Dezembro de 2025), demonstra que Angola não enfrenta uma crise de vontade de trabalhar, mas sim uma crise de modelo económico. A taxa de desemprego de 26,9%, a elevada taxa de actividade de 88,1% e a concentração de 41,3% da força de trabalho na agricultura revelam uma economia que não responde às aspirações da sua juventude.

Como defende Ha-Joon Chang (2010), “o desenvolvimento é uma escolha política”. Sem uma estratégia clara de diversificação produtiva, industrialização e políticas activas de emprego, o desemprego continuará a ser menos um milagre estatístico e mais uma miragem social.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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