Crónica
A pedra no caminho angolano
Em Angola, a vida também raramente muda de cenário de um dia para o outro. O bairro continua o mesmo, o salário continua curto, o transporte continua cheio, e as promessas parecem sempre a caminho de chegar. O que muda, quase sempre em silêncio, é o lugar de dentro de onde cada um de nós escolhe olhar para a realidade.
No mesmo bairro sem água regular, alguém vê apenas abandono. Outro vê luta, engenho e sobrevivência. No mesmo desemprego prolongado, uns sentem humilhação, outros constroem paciência, aprendem um ofício, reinventam o dia. A diferença não é sorte. É consciência educada no quotidiano duro, é escolha repetida mesmo quando ninguém está a aplaudir.
Há dias em que a dificuldade pesa mais em Angola. A pedra chama-se custo de vida, chama-se falta de oportunidades, chama-se espera interminável por um “amanhã melhor”. É uma pedra que aperta o peito, cria raiva, cansa a esperança. Nesses momentos, o coração quer brigar com a realidade, como se a dor fosse sinal de que fomos esquecidos. Mas crescer, aqui, é perceber que o facto não pede revolta cega, pede direcção.
A pedra não precisa ser retirada de Angola inteira. Precisa ser colocada no lugar certo dentro de cada um de nós. Quando deixamos de perguntar apenas “por que o país está assim?” e começamos a perguntar “o que posso fazer, mesmo assim?”, algo muda. Não muda tudo fora, mas muda o modo como caminhamos.
Existe uma arte discreta que o angolano aprende cedo: lidar com o que acontece. Respirar fundo antes de responder com violência. Escutar antes de julgar. Segurar a dor para que ela não vire amargura. Transformar pouco em partilha. Transformar cansaço em persistência.
Não controlamos todas as quedas. A economia cai, as oportunidades atrasam, os sonhos ficam em suspenso. Mas podemos escolher onde fincar o pé ao levantar. Podemos transformar peso em força, atraso em aprendizagem, ferida em consciência. E, pouco a pouco, percebemos que muitos “fins” eram apenas convites para atravessar uma fase mais dura da estrada.
Se hoje só consegues ver a pedra, tudo bem. Muitos angolanos começaram assim. A travessia começa com verdade, com humildade e com um passo curto, mas firme. A ponte nasce quando decidimos, apesar de tudo, não desistir de nos conduzir com dignidade.
Angola precisa de mudanças grandes, sim. Mas também precisa, todos os dias, de cidadãos que aprendam a colocar as pedras no lugar certo e a continuar a caminhar. Porque quem não desiste de si mesmo já começou, em silêncio, a mudar o país.
