Bastidores do Poder
A crise na Guiné-Bissau está longe do fim
A crise política na Guiné-Bissau está longe de conhecer o seu desfecho. A chamada “mão invisível”, atribuída ao antigo presidente Umaro Sissoco Embaló, continua a operar nos bastidores, impondo uma agenda orientada para a captura do Estado e para a instrumentalização das instituições segundo as suas vontades.
Apesar da libertação de Domingos Simões Pereira, com mediação senegalesa, gesto que chegou a ser interpretado como o prenúncio do fim do impasse político vivido naquele país da lusofonia, os acontecimentos registados no mesmo dia, bem como nos dias anteriores, revelam tratar-se de um presente envenenado. Os factos demonstram que a crise está muito longe de ser ultrapassada.
Para o regime actualmente instalado em Bissau, que, segundo diversos analistas, continua a ser comandado à distância por Umaro Sissoco Embaló, Domingos Simões Pereira permanece uma verdadeira “pedra no sapato”. Apesar da farsa em torno de um alegado golpe de Estado, protagonizado por um autoproclamado comando militar, o objectivo central parece ser a neutralização definitiva de Domingos Simões Pereira da vida política bissau-guineense.
Tudo indica que foi colocado em marcha um plano cuidadosamente delineado para o afastar do xadrez político. Para o efeito, terão sido mobilizados alguns militantes do PAIGC, partido do qual Domingos Simões Pereira é presidente, que criaram um grupo auto-denominado “grupo de reflexão”. Segundo os seus promotores, o objectivo seria forçar a realização de um congresso extraordinário com vista a afastar Domingos Simões Pereira da liderança do partido, alegando que não podem ser liderados por um presidente em prisão domiciliária.
Importa sublinhar que a própria prisão domiciliária de Domingos Simões Pereira, mencionada no comunicado da CEDEAO, continua a ser considerada ilegal por diversos analistas nacionais e internacionais, por carecer de fundamentos legais e por inexistência de factos que a justifiquem.
Paralelamente, outro plano atribuído aos mesmos protagonistas passa pela aprovação de uma nova lei dos partidos políticos. Tudo indica que essa legislação poderá impor restrições, banir partidos políticos e criar condições favoráveis ao regresso de Umaro Sissoco Embaló ao cenário eleitoral, nas eleições previstas para Dezembro do corrente ano.
Face aos mais recentes desenvolvimentos políticos na Guiné-Bissau, é possível afirmar, sem medo de errar, que a crise política está longe de conhecer o seu fim. Os seus protagonistas são conhecidos. Resta saber se haverá coragem política por parte da CEDEAO, da CPLP, da União Africana e das Nações Unidas para tomarem decisões firmes e acertadas, respeitando, naturalmente, a soberania e a vontade do povo bissau-guineense.
