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Análise

General Zhang Youxia: não há intocáveis na China

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A queda do general Zhang Youxia abalou as elites em Pequim que juram lealdade ao regime de Xi Jinping. O presidente chinês virou-se contra o homem que, até agora, actuava como os “olhos e ouvidos” de Xi nas Forças Armadas, ou seja, o seu homem de extrema confiança, com laços históricos muito fortes. Mas a queda do General é um recado claro: não intocáveis, China em primeiro lugar. A questão que se coloca, quem será o próximo se os de extrema confiança estão em queda livre?

General Zhang é conhecido por ser confiante, seguro e sem “medo de falar com estrangeiros”. É assim que é descrito por quem privou com ele, inclusive Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional dos EUA, que se reuniu recentemente com aquele que era, até há pouco tempo, um dos aliados mais próximos do presidente Xi Jinping.

Hoje, porém, Zhang é o rosto de um dos maiores escândalos de corrupção das últimas décadas do exército chinês, sendo acusado de “desrespeitar” a autoridade do chefe militar, Xi Jinping, e de “minar gravemente a liderança absoluta do partido sobre as Forças Armadas” – acusações feitas num editorial sobre o general Zhang no Diário do Exército de Libertação. Como pode um homem tão poderoso, conhecedor do regime, com idade de reforma, ferir com o Congresso Nacional do Povo?

Surgem, entretanto, outras acusações contra Zhang. De acordo com o Wall Street Journal, Zhang também é acusado de vender segredos nucleares aos Estados Unidos, o que é mais grave ainda se isto se provar, pois crimes desta natureza levam a prisão pena de morte. Mas, é aqui onde se levanta alguma indagação, um indivíduo com o seu prestígio, depois do Xi era a segunda pessoa no Exército, conhecia bem os riscos, ainda assim arriscaria ao intentar contra o poder? 

Duas hipóteses, a primeira pode se dar caso que o General teve excesso de confiança, e aproveitou-se desta posição para fazer o que bem lhe aprouver, – muitas destas situações ocorrem no seio da alta política, sentir-se confortável demais e criar agendas pessoais; uma segunda, pode se dar o caso que o General Zhang estivesse a crescer demais, estava a se tornar muito poderoso depois da queda de pelo menos 4 militares de peso, e Xi usou a estratégia de contenção e pânico. Às vezes temos de lembrar quem manda de facto. 

A relação entre Xi Jinping e o general Zhang remonta há vários anos. Ambos são príncipes herdeiros, filhos de revolucionários que serviram sob o comando de Mao Tsé-Tung. O pai de Zhang serviu ao lado do pai de Xi, Xi Zhongxun, na China. Não se sabe se Zhang e Xi eram próximos na infância, mas, segundo Joseph Torigian, autor de uma biografia de Xi Jinping, este ponto em comum pode ter ajudado a fortalecer o vínculo entre ambos, pois partilhavam a mesma história dos seus pais.

Quando Xi chegou ao poder, em 2012, decidiu promover uma reestruturação das Forças Armadas, que estavam “mergulhadas na corrupção e presas ao passado”, o general Zhang foi precisamente um dos comandantes escolhidos por Xi Jinping para liderar essa reforma do Exército de Libertação Popular.

Deng Yumen, antigo editor de um jornal do Partido Comunista Chinês, que vive agora nos EUA, disse que a queda do general Zhang vai ter “um grande impacto na elite do poder em Pequim, uma vez que elimina uma das suas barreiras de segurança”. “Nem mesmo a relação pessoal de Zhang Youxia com Xi Jinping garantia a sua segurança, pelo que ninguém se pode sentir seguro.”

Jack Sullivan descreve a queda de Zhang como “um evento sísmico”, sobretudo tendo em conta que o presidente chinês está “a eliminar alguém com quem tinha uma longa história”.

Ainda em 2012, Zhang foi promovido a chefe do departamento de armamento das Forças Armadas da China, organismo responsável pela compra de armas – cargo que ocupou até 2017. Daniel Mattingly, professor da Universidade de Yale que estuda a política militar chinesa, explica ao New York Times que aquele departamento tinha tudo para ser “um verdadeiro foco de corrupção”, “perfeito para receber subornos”.

Tanto assim é que, de acordo com o jornal norte-americano, outros oficiais superiores que trabalhavam naquele departamento acabaram por ser afastados na sequência de investigações de combate à corrupção. O general Zhang, aguentou ao cargo, por não ter estas ligações de corrupção, de repente a mesma questão na mesa.

Aos 75 anos, Zhang, em teoria, já estaria reformado. Xi Jinping decidiu mantê-lo no cargo mesmo após a sua reforma e nomeou-o o seu principal vice-presidente da Comissão Militar Central. Na prática, Zhang actuava como “os olhos e os ouvidos de Xi na gestão diárias das forças do Exército de Libertação Popular”. 

Que estratégia política Xi Jinping está aplicar, quando um general como Zhang é alvo de buscas?

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