Análise
Entre o ruído e a representação: o que realmente esteve em jogo ontem no debate presidencial português
Os debates da segunda volta presidencial raramente são sobre ganhar. São, quase sempre, sobre não perder. A escolha já não é ideal, é defensiva. Ainda assim, o confronto entre António José Seguro e André Ventura conseguiu concentrar, em pouco tempo, quase todas as tensões que atravessam hoje a política portuguesa e europeia. Não foi apenas um debate entre dois candidatos. Foi um embate entre dois modos de entender o poder, o Estado e a própria função presidencial.
A leitura dominante nos jornais, nos sites de análise política e nos comentários televisivos oscilou entre dois eixos previsíveis: de um lado, Ventura como figura disruptiva, comunicador eficaz, agressivo no ritmo e orientado para o choque; do outro, Seguro como candidato da moderação, da experiência e do respeito pelas instituições. Esta dicotomia não é nova, mas o debate tornou-a impossível de ignorar.
Ventura tentou enquadrar a eleição presidencial como uma continuação da luta partidária, insistindo em colar Seguro ao Partido Socialista e a um passado que descreve como fracassado. A estratégia é clara e tem escola: simplificar problemas complexos, personalizar responsabilidades e oferecer a rutura como solução universal. É um discurso que funciona bem na era dos clipes, dos títulos fortes e da política feita para circular em rede. O problema é que a Presidência da República não vive de slogans, vive de contenção.
Seguro, pelo contrário, falou para um eleitorado cansado do ruído. Apostou numa lógica institucional, lembrando e bem que o Presidente não governa, representa e arbitra. Foi uma postura coerente com o cargo, embora nem sempre eficaz em termos mediáticos. Em momentos-chave, faltou-lhe clareza estratégica, nomeadamente quando confrontado com temas sensíveis como a saúde. Ainda assim, manteve uma linha que reconheço como presidencial, mesmo que pouco entusiasmante.
O debate revelou algo mais fundo: a crescente tentação de importar modelos políticos alheios ao contexto português. A ideia de um Presidente “forte”, interventivo, quase executivo, inspira-se mais no sistema norte-americano do que no semipresidencialismo europeu. Em Portugal, essa confusão não é apenas teórica, é politicamente perigosa. O eleitor percebe, mesmo que intuitivamente, que um Presidente em permanente confronto pode desestabilizar mais do que resolver.
Nas presidenciais, ideologia conta pouco. Direita e esquerda diluem-se perante a uma pergunta mais simples e mais exigente: quem pode representar Portugal com equilíbrio num mundo instável? Quem garante o funcionamento das instituições quando os conflitos apertam? Quem sabe falar quando é preciso e calar quando convém?
O debate não decidiu tudo, mas esclareceu muito. Mostrou que, entre o ruído e a representação, o eleitor tende a escolher quem entende o peso simbólico do cargo. Porque, no fim, a Presidência não é sobre mandar. É sobre saber estar. E isso continua a fazer toda a diferença.
