Análise
Venezuela e os EUA: não é sobre Maduro, é uma disputa ideológica
Secretário de Estado norte americano, Marco Rubio, considera a possibilidade de haver uma nova vaga militar na Venezuela por esta não colaborar de forma integral aos interesses americanos, porém…
A tensão política entre os EUA e a Venezuela, dois Estados que pertencem ao mesmo continente, já dura algumas décadas, muito antes de Nicolas Maduro, até antes do falecido presidente Hugo Chavez (1999-2013), que foi o epicentro do problema, pois o seu legado foi anti-imperialismo e os seus discursos acabará por custar-lhe a vida.
Mais do que o petróleo e outros recursos, o que gera mesmo irritabilidade aos americanos é ter vizinhos que não comungam da sua ideologia, do seu modelo capitalista, nisto, Trump já disse que Cuba brevemente entra na sua agenda.
É tudo a ideologia política e económica, e as alianças que a Venezuela fez durante este percurso, aliada ao marxismo leninismo, com parceiros como a Rússia e a China, Irão, todos oponentes directos ao modelo ocidental, e capturar Maduro, com acusações de narcotráfico, narcoterrorismo, é relembrar o que aconteceu ao Manuel Noriega, no Panamá.
Como a Venezuela tornou-se uma persona non grata para os americanos?
Depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os americanos decidiram criar uma série de instituições para ampliar os seus tentáculos em toda parte do mundo, e fora as Nações Unidas, e as instituições de Bretton Woods, originaram as instituições do FMI e BM, que, emprestaram dinheiro a Europa para a sua reconstrução com o Plano Marshall, em 1947, bem como a criaram um exército conjunto denominado NATO em 1949 para o fortalecimento das relações militares e acabar com determinadas guerras, mas todas estas intenções a URSS recusou a sua adesão, mesmo depois de vários convites, pois entendia qual era o real plano dos ocidentais, ter acesso aos dados económicos, bem como os dados do exército destes países, que a URSS decidiu criar a sua própria organização militar o Pacto de Varsóvia em 1955, mesmo ano da criação dos países não alinhados, todos com ideais contra o império.
Neste período, os americanos já estavam a tentar controlar o mundo, e uma das resistências era Cuba de Fidel Castro, logo em 1961, deu-se o ataque a Baía dos Porcos, mesmo ano da construção do muro de Berlim e ainda no mesmo ano a primeira conferência dos países não alinhados em Belgrado, antiga Iugoslávia, para definir de uma vez por todas os ocidentais e os não ocidentais, o que desencadeou mais tarde a Crise dos Mísseis, em 1962, quando a URSS demonstrou ao mundo que estava pronto a enfrentar os EUA. Logo, o socialismo estava em alta e tinha o seu bastião, uma protecção de peso.
Rigorosamente estudado, o socialismo a nível global, surge primeiro, logo, era os americanos a lutarem contra uma ideologia que não versava os ideais do New Deal, após a grande depressão de 1929.
Em 1973 os rapazes de Chigago, mandatos por Richard Nixon, recomeçam as suas investidas na América Latina, e o derrube de várias economias e líderes, aquilo que considero de Genocídio Económico, foi assim que Salvador Allende caiu e emergiu August Pinochet, no Chile, Peru, Bolívia e Panamá com Manuel Noriega, em 1983 apoiado pela CIA, para impor a visão ocidental, não cumpriu à risca a agenda, e foi retirado do poder, levado aos EUA com os mesmos crimes que Maduro, isto em 1989. Mais uma vez o problema da ideologia e os interesses ocidentais.
Hugo Chávez chega ao poder em 1999, mas em 1992 tentou por via de um golpe, não correu como esperado, foi preso, depois amnistiado, e quando venceu as eleições, adoptou a filosofia socialista, mas Chávez chegou a ser dos mais combatidos, porque não media as palavras, na plenária das Nações Unidas insultava de forma directa os americanos, “de diabos, do mal no mundo”, uma estratégia pouco recomendada, e, quando Maduro assumiu em 2013, herdou também estes dilemas, porque era leal ao falecido, e rejeitou aproximação ocidental, resultado: embargos económicos, sanções, restrições e crise interna.
A intenção sempre foi a de fragilizar, criar uma crise interna, para sofrer um golpe, ou não conseguir governar face as contestações, com manifestações, greves, e fazendo nascer vários líderes. Não estamos aqui a dizer que há santidade da Venezuela e no regime de Maduro, que não se reinventou, não fez grandes mudanças, já que pretendia durar no poder. Quanto mais a população cresce e desenvolve, mais o governo deve ampliar o seu campo de actuação e isto não serve só para Caracas.
A nossa visão é muito objectiva e dividida em dois eixos, primeiro da acção, que podemos considerar a captura como todos vimos, um presidente em exercício sendo levado com algemas, sem as imunidades que tem enquanto chefe de Estado; e segundo a narrativa, que será o escopo de observação.
A acção é tudo aquilo que nós vimos, começou com ameaças, dissuasão, e até a acção de facto, cogita-se traição interna, por causa dos 50 milhões de dolares oferecidos publicamente pelos americanos, mas a questão é que ela acabou por decorrer, levaram mais uma vez um presidente em exercício, quando há mecanismos internacionais para se recorrer, em função dos interesses e agora a outra parte é retirar a ideologia do chavismo.
A presidente interina Dalcy Rodriguez, tem sofrido pressão dos americanos todos os dias e diz estar cansada destas exigências dos americanos, e vai dar um basta, mas é forçar uma mudança de mentalidade, e aplicar as pretensões capitalista, alinhada ao ocidente.
A nossa preocupação foi muito mais com a narrativa, que são aquelas que criam teorias nas relações internacionais, mas a comunicação política está em crise. Quando já estavam em posse de Nicolas Maduro, as abordagens foram de pernósticas, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que os EUA vão “governar” temporariamente a Venezuela, e que não aceitar qualquer ingerência, pois queremos ter bons vizinhos, e onde fica a soberania e a livre escolha dos Estados? O que pressupõe dizer que não às drogas como se quer passar. A verbalização como Trump e o seu vice J. D. Vance falam em televisão, com gestos, risadas, sátiras, provocações, não ajuda em nada a manutenção do equilíbrio entre os actores internacionais.
“Vamos fazer com que as nossas grandes empresas petrolíferas americanas, as maiores do mundo, entrem no país, invistam milhares de milhões de dólares, restaurem a infraestrutura gravemente danificada, a infraestrutura petrolífera, e comecem a gerar receitas para o país”, afirmou Donald Trump, numa comunicação sem rodeios, sem travões, como se estivesse a falar de uma parte do seu país, sem indícios graves de drogas, porque retiraram esta parte da acusação.
Angola, sendo membro dos países não alinhados, e o partido que governa é de matriz do socialismo democrático, e por mais que tenha grande aproximação com os americanos nos últimos tempos, deve comunicar, condenar estes actos de forma clara e objectiva, como outros grandes aliados dos americanos o fizeram, existem regras, e se cada um fizer o que apetecer, que mundo teremos? Ninguém está seguro quando se trata das vontades dos americanos e isto deve ser repudiado, as cooperações e os acordos existem para resolver estes dilemas, mas invalidar as regras do jogo, não é aceitável. Não estamos na era da anarquia internacional, pois as instituições foram criadas para mitigar e alicerçar os Estados.