Análise
“Urbi et Orbi” tributário: pregai o rigor, irmãos da AGT
Em Washington, a ministra das Finanças Vera Daves, apelou ao rigor. Em Angola, nós apelamos ao milagre.
Diante dos distintos quadros da AGT, o discurso foi claro: responsabilidade, ética, transparência e respeito pelo dinheiro público. Uma verdadeira homilia financeira. Faltou apenas acrescentar: “Meus irmãos, antes de executarem a despesa, façam jejum de 40 dias para afastar a tentação.”
Porque, convenhamos, quando o apelo é moral e não estrutural, algo vai mal. Onde estão os mecanismos de controlo interno? Onde estão os sistemas eficazes de auditoria preventiva? Onde está a segregação rigorosa de funções? Ou agora o novo modelo de controlo chama-se consciência individual?
Talvez a estratégia seja inovadora: substituir regulamentos por versículos, auditorias por retiros espirituais e relatórios financeiros por confissões voluntárias.
“Por favor, senhores da AGT”, parece ecoar no ar, “gastem o nosso dinheiro com carinho.” Não com aquele carinho administrativo frio e impessoal, mas com o mesmo entusiasmo criativo que transforma despesas improváveis em factos consumados, como se sete milhões fossem apenas trocos emocionais de uma tarde inspirada.
O contribuinte angolano agradece a pedagogia moral. Só fica a dúvida: se o problema fosse apenas falta de sermão, já não estaríamos todos canonizados?
Rigor não se implora. Implementa-se.
Transparência não se recomenda. Fiscaliza-se.
Responsabilidade não se apela. Exige-se.
Até lá, continuaremos à espera do próximo discurso edificante, enquanto o erário, esse fiel sofredor, segue a sua via sacra orçamental.
