Análise
UNITA vs PRA-JA: A disputa que pode decidir 2027 e colocar Chivukuvuku em Xeque
Ao longo de décadas, o sistema político angolano foi dominado pelo MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola, partido que governa o país desde a independência em 1975. Este monopólio histórico do poder, embora legítimo dentro do quadro constitucional, criou um contexto em que a oposição enfrenta enormes desafios para se consolidar como alternativa viável. Nos últimos anos, o surgimento de novas forças políticas, em particular o PRA-JA Servir Angola, trouxe uma dinâmica inédita ao espectro político nacional. O PRA-JA posiciona-se como uma alternativa moderna e ética, liderada por Abel Epalanga Chivukuvuku, e procura conquistar espaço junto aos eleitores que desejam mudança e renovação.
1. História Recente e o Fim da Unidade Opositora
Durante as eleições de 2022, diversos partidos da oposição, incluindo UNITA, PRA-JA e Bloco Democrático, uniram-se na Frente Patriótica Unida (FPU), numa tentativa de desafiar o MPLA de forma mais eficaz. A FPU surgiu como uma plataforma informal de coordenação entre partidos, mas a falta de formalização acabou por limitar o seu impacto estratégico. De acordo com fontes da época, a FPU funcionava mais como um espaço de negociação e articulação temporária do que como uma coligação estruturada e homogénea (Wikipedia, 2025).
Com a legalização do PRA-JA em Outubro de 2024, o partido consolidou a sua autonomia e definiu directrizes internas para concorrer às eleições de 2027 de forma independente. A saída do PRA-JA da FPU sinalizou o início de uma nova fase de competição directa com a UNITA, que até então era a principal força da oposição ao MPLA. O PRA-JA afirmou, através dos seus órgãos oficiais, que pretende concorrer de forma autónoma, mas mantendo a disposição para coligações estratégicas desde que preservem a identidade do partido e não impliquem agregações que o enfraqueçam (RTP, 2025).
2. Competição pelo Mesmo Espaço Político
A UNITA e o PRA-JA compartilham o mesmo objectivo fundamental: substituir o MPLA no poder através de processos democráticos e conquistar legitimidade junto aos eleitores que desejam alternância política. Este objectivo convergente cria naturalmente competição directa pelo mesmo eleitorado de oposição, especialmente entre jovens, urbanos e sectores críticos do país que procuram uma alternativa viável.
O analista político Ilídio Manuel observa que sinais recentes indicam que o PRA-JA concorrerá de forma isolada em 2027, o que poderá dividir os votos opositores e enfraquecer a capacidade coletiva da oposição de se apresentar como alternativa sólida ao MPLA (DW, 2025). Esta competição não é meramente eleitoral, mas estratégica, pois envolve a liderança simbólica da oposição e a definição do rumo político do país.
3. Fragmentação da Oposição e Benefícios ao MPLA
A fragmentação da oposição, sobretudo entre UNITA e PRA-JA, apresenta consequências directas no equilíbrio político nacional. Analistas como Eurico Gonçalves destacam que esta divisão interna representa uma migração partidária que reflete competição entre lideranças pela hegemonia dentro da oposição. Uma oposição dividida tende a perder influência e força eleitoral, o que pode beneficiar directamente o MPLA, já que este mantém o controlo institucional e acesso a recursos governamentais significativos (Africa Press, 2025).
Estudos de ciência política comparada indicam que partidos fragmentados num sistema competitivo tendem a diluir o seu poder eleitoral, especialmente quando enfrentam partidos dominantes com forte estrutura e presença nacional. Em Angola, a divisão entre PRA-JA e UNITA poderá repetir este padrão, reforçando o poder do partido governante e dificultando a emergência de uma alternativa credível.
4. Divergências Estratégicas e Estruturas de Coligação
Outro factor que agrava a rivalidade entre UNITA e PRA-JA é a divergência sobre a organização da oposição para 2027. O PRA-JA defende a criação de coligações formais com regras claras e compromissos específicos entre partidos, enquanto a UNITA e outros membros da antiga FPU preferem um alinhamento mais flexível, evitando compromissos estruturais que possam restringir a sua liberdade política (O País, 2025).
Esta diferença estratégica revela não apenas distinções táticas, mas também diferentes visões sobre liderança, identidade partidária e a forma de mobilizar eleitores, aprofundando a rivalidade entre os dois partidos.
5. Polémica em Torno da Liderança do PRA-JA
Um capítulo crucial desta análise envolve a conduta de Abel Chivukuvuku, líder do PRA-JA. Durante um debate sabatino na Rádio Essencial, o professor universitário e analista político Albino Pakisi criticou a postura do líder do partido, afirmando que há um descompasso entre o discurso interno e a acção externa do presidente do PRA-JA:
“Dissemos que o PRA-JA deve andar sozinho. Mas o Abel negocia demasiado!” — Albino Pakisi, Rádio Essencial, 2026.
Pakisi questiona a coerência e firmeza estratégica de Chivukuvuku, sugerindo que as negociações contínuas e, por vezes, contraditórias com outras forças políticas podem afetar a credibilidade do PRA-JA perante eleitores e parceiros. Esta crítica evidencia um dilema central do partido: concorrer sozinho e manter autonomia política, ao mesmo tempo em que o seu líder participa em negociações frequentes que podem ser percebidas como ambivalentes ou contraditórias.
A polémica em torno de Chivukuvuku coloca em evidência a tensão entre liderança pessoal e disciplina partidária, assim como a necessidade de equilibrar flexibilidade política com coerência estratégica. Esta questão será determinante para o futuro do PRA-JA, uma vez que a percepção pública de firmeza e coerência é crucial para consolidar a base eleitoral e fortalecer a identidade do partido.
6. Personalismo e Identidade de Liderança
Enquanto a UNITA mantém uma identidade histórica e consolidada, alicerçada na resistência à hegemonia do MPLA, o PRA-JA aposta numa narrativa de renovação política, ética e modernidade, com enfoque no serviço público, transparência e participação cidadã. Esta diferença de estilo de liderança reforça a rivalidade entre os dois partidos, mas também cria tensões internas, sobretudo quando a conduta do líder contrasta com a linha defendida pela base partidária.
A liderança de Chivukuvuku, marcada pela negociação contínua, pode ser interpretada de duas formas: por um lado, como demonstração de habilidade política e abertura ao diálogo; por outro, como falta de firmeza e de coerência estratégica, conforme salientou Albino Pakisi. Esta dualidade terá impacto direto na percepção do eleitorado e na competitividade do PRA-JA.
7. Conclusão: Por que a UNITA é Adversário Directo do PRA-JA
A UNITA é adversário directo do PRA-JA por diversos motivos estratégicos e eleitorais:
1. Ambos competem pelo mesmo eleitorado de oposição, que procura alternância política e mudança efectiva.
2. A fragmentação da oposição pode enfraquecer a frente comum e beneficiar o MPLA, reforçando a hegemonia do partido no poder.
3. Divergências sobre estruturas de coligação e negociação refletem tensões de liderança e identidade partidária.
4. A polémica em torno de Abel Chivukuvuku coloca em questão a coerência e firmeza estratégica do PRA-JA, impactando a percepção pública do partido.
5. Diferenças na narrativa política e estilo de liderança consolidam a rivalidade, transformando-se numa disputa directa por legitimidade, visibilidade e poder político.
Em síntese, a UNITA e o PRA-JA disputam o mesmo espaço político de mudança e renovação em Angola, mas com estratégias, estilos e identidades distintas. O resultado desta rivalidade poderá determinar não apenas o desempenho eleitoral em 2027, mas também a configuração futura da oposição e a profundidade da democracia no país.