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Politica

UNITA volta a registar agitação 13 anos depois da grande instabilidade

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Há 13 anos, a UNITA enfrentava um dos piores momentos de sua história democrática. O então presidente, Isaías Samakuva, era acusado de violar os estatutos do partido pelo facto de ter estado a retardar a realização do Congresso Ordinário, o que precipitou a criação, por iniciativa de alguns militantes de proa, daquilo a que se convencionou chamar de ‘Grupo de Reflexão’, que tenha como objectivo pressionar Samakuva a convocar o tão aguardado pleito.

Boa parte do grupo tinha Abel Chivukuvuku como preferência para liderar a UNITA, em grande medida por alegadamente representar igualmente a preferência dos cidadãos alheios à UNITA.

Até aí nada de muito grave, mas o caldo entornou a sério quando o referido grupo realizou uma conferência de imprensa bastante concorrida no Hotel Fórum, em Luanda, para apresentar os seus objectivos, tendo a conferência contado com a presença de Abel Chivukuvuku, dos generais Chiwale e Paulo Lukamba Gato, só para citar estes.

O facto foi visto como uma tentativa de sabotagem da direcção em exercício, e, entretanto, não deviam ser perdoados. Do grupo da direcção do partido liderado por Isaías Samakuva, em que faziam parte o general Kamalata Numa (então secretário-geral), o actual líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior (então secretário para o património), Alcides Sakala (porta-voz), Cláudio Silva, Mihaela Weba, e outros, a reacção foi pesada. De Kamalata Numa eram ouvidas frases como “Não há cá históricos [aparentemente uma referência a José Chiwale]”, sublinhando mesmo que se cometeram têm de ser sancionados.

Contudo, talvez por ser ‘mais velho’ e um dos Conjurados da UNITA, título ‘honroso’ atribuído aos quadros co-fundadores do partido, Chiwale foi submetido a um processo disciplinar, mas acabou perdoado. Já Abel Chivukuvuku, o então médico de Savimbi, Carlos Morgado (também já falecido), Lukamba Gato, Vicente Vihemba, Américo Chivukuvuku, Rafael Aguiar, Joaquim Muafuma, Xavier Jaime, Manuel Tadeu, António Tchiulo Felipe e Evaristo Chicolomuenho foram todos suspensos enquanto decorriam processos disciplinares que lhes foram instaurados por violação dos estatutos por se terem associado ao Grupo de Reflexão.

O anúncio da suspensão foi feito numa reunião realizada na província do Huambo, da qual Abel Chivukuvuku e Lukamba Gato poderiam participar, ouvir todas as acusações, mas sem direito à palavra. Uma medida recusada por Abel Chivukuvuku, que acabou por abandonar a sala.

O braço de ferro entre Samakuva e Chivukuvuku terminou com a saída deste último das fileiras da UNITA. Para certos círculos, Isaías Samakuva fizera parte de um complô da Presidência da República que visava travar a ascensão de Abel Chivukuvuku, face à sua performance política, visto como capaz de apressar a ida do MPLA à oposição. Mas, para outros segmentos, Chivukuvuku estava ao serviço do regime, e tinha como missão criar instabilidade no seio da organização.

No entanto, depois de certa calmaria a nível interno, a UNITA volta a registar agitação 13 anos depois da grande instabilidade, que causou um êxodo de militantes.

Desta vez, é o nome do fundador do partido que está no centro das divergências, e Isaías Samakuva volta a estar ligado à instabilidade do partido. Se no passado era o presidente da organização e visto como vítima de certos membros do partido que alegadamente tencionavam sabotar a sua direcção, no momento, é o próprio Isaías Samakuva a quem recai suspeições de tentativa de sabotagem, chantagem e de defesa de interesses obscuros ao partido.

Surpreendentemente, a criação da Fundação Jonas Savimbi, que sempre foi debatido no interior da UNITA, acabou por ser concebido fora das suas estruturas. E Isaías Samakuva, na qualidade de coordenador, passa a ter uma tribuna para manter-se nos holofotes.

As suspeições sobre Isaías Samakuva, que administrou a UNITA por quase duas décadas, surge pelo facto de o político, desde que largara a presidência da entidade, nunca viera a público demonstrar quer apoio ao partido, quer apoio ao seu presidente Adalberto Costa Júnior. Mesmo em eventos magnos, como foi a longa cerimónia de três dias para enterro das ossadas de Salupeto Pena e Alicerces Mango, mortos na sequência dos confrontos pós-eleitorais de 1992, foi notória a ausência de Isaías Samakuva nos dias em que Adalberto Costa Júnior estivesse presente.

Associado a isso, Isaías Samakuva tem as portas do Palácio Presidencial escancaradas para si. Não só é facilmente recebido como os seus pedidos acabam quase sempre por serem satisfeitos, contrariamente ao seu líder partidário, a quem cabe delinear as políticas do partido.

Kamalata Numa, actual secretário para os Antigos Combatentes da UNITA, referiu, numa mensagem recente, que Adalberto Costa Júnior tem sido perseguido desde que ascendeu ao poder a nível interno, e nomeou mesmo o MPLA de estar a instrumentalizar “pseudos-membros da UNITA orientados por ex-dirigentes e outros” com vista a “aniquilar a UNITA”. E visou peremptório: “voltar [a essa lógica] uma jogada perdida”.

De referir, que Numa não citou Isaías Samakuva, de quem já foi secretário-geral, mas, em vários círculos vaticina-se que tenha mesmo se referido a Samakuva um “ex-dirigente”, que, com uma ajudinha do Presidente da República e concomitantemente presidente do MPLA, a quem pediu auxílio para a legalização da Fundação, tem hoje criada a Fundação Jonas Savimbi.