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Um terço de toda cobertura de notícias sobre África é proveniente de fontes não africanas

Redação

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Um terço de todas as histórias africanas relatadas pelas agências noticiosas do continente é obtido através de serviços de notícias estrangeiros, de acordo com um novo relatório da Africa No Filter, divulgado nesta segunda-feira, 25.

O relatório “How African Media Covers Africa” (Como os meios de comunicação social africanos cobrem as notícias de África) destaca o facto de as histórias sobre África continuarem a ser contadas através dos mesmos estereótipos persistentes e negativos, com especial incidência nas questões relacionadas com a pobreza, a doença, os conflitos, a fraca capacidade de liderança e a corrupção.

A equipa responsável pelo estudo inquiriu 38 editores africanos e analisou conteúdos de 60 agências noticiosas africanas de 15 países (Botswana, África do Sul, Zâmbia, Zimbábue, RDC, Egipto, Tunísia, Tanzânia, Etiópia, Quénia, Ruanda, Uganda, Gana, Nigéria e Senegal), entre Setembro e Outubro de 2020.

Além disso, foram criados quatro grupos de enfoque, orientados por um facilitador, com 25 editores de meios de comunicação social africanos, editores de agências noticiosas pan-africanas e correspondentes internacionais. Os resultados confirmam os desafios e as experiências que toda a gente reconhece dentro do sector: as receitas de publicidade e as salas de imprensa estão a diminuir, influenciando o tipo de notícias que os africanos leem, e as notícias são, na sua grande maioria, negativas e repletas de referências a conflitos.

Os principais resultados do relatório mostram que as fontes de obtenção de notícias nos países africanos são problemáticas, que os conteúdos resultantes continuam a alimentar antigos estereótipos, e que, frequentemente, a qualidade do jornalismo local não possibilita a existência de relatos contextualizados, com todas as nuances, fundamentais para contar o que se passa nos 54 países que compõem o território africano.

Dados

Ainda de acordo com o estudo, cujo comunicado de imprensa foi enviado ao Correio da Kianda, 63% das agências noticiosas inquiridas não têm correspondentes noutros países africanos.

Um terço de toda a cobertura de notícias sobre África é proveniente de fontes não africanas e as histórias da AFP e da BBC representam ¼ de todas as histórias encontradas nas agências noticiosas africanas que falam sobre outros países africanos. O contributo das agências noticiosas africanas é mínimo.

O estudo aponta ainda que 81% das histórias foram classificadas como “hard news”, ou seja, notícias sobre conflitos e crises decorrentes de certos eventos – além disso, na sua grande maioria, as notícias encontradas eram de natureza política.

Ainda 13% das notícias concentravam-se, especificamente, em situações de violência política, de agitação social e de conflitos armados.

África do Sul lidera cobertura diversificada

A África do Sul e, imediatamente a seguir, o Egipto, foram os países que apresentaram uma cobertura mais diversificada e não necessariamente associada a eventos noticiosos, o que significa que esses dois países são, provavelmente, os “mais conhecidos” do continente.

“Os meios de comunicação social têm uma influência incrível na definição da agenda e na determinação das narrativas sobre África”, declara Moky Makura, director executivo da Africa no Filter. “O estudo mostra claramente que, apesar de já terem muitos anos de independência, os africanos continuam a não ser quem controla a ‘caneta’ utilizada para escrever as nossas histórias. E o que é mais importante, continuamos a promover as narrativas que falam de África como um continente falido, dependente e com falta de boa gestão, através das histórias que partilhamos nos meios de comunicação social uns sobre os outros. Precisamos de recuperar o controlo da ‘caneta’.”

A Africa no Filter é uma organização sem fins lucrativos que foi constituída o ano passado com o objectivo de ajudar a mudar as narrativas prejudiciais e estereotipadas sobre África, através de trabalhos de pesquisa, de iniciativas de defesa de interesses e da concessão de subsídios a quem conta as histórias. É financiada pelas seguintes entidades: Ford Foundation, Bloomberg, Andrew W. Mellon Foundation, Luminate, Open Society Foundation, Comic Relief, Hilton Foundation e British Council.

Makura acrescenta: “ironicamente, 50% dos editores inquiridos consideravam que a cobertura que faziam dos outros países africanos não continha estereótipos. Isso mostra, claramente, que temos algum trabalho a fazer no que se refere a educarmo-nos quanto ao papel que desempenhamos na perpetuação de estereótipos ultrapassados sobre nós próprios. A narrativa é importante e comporta implicações que ultrapassam o simples relato de histórias, uma vez que afecta o investimento em África, os jovens e as oportunidades que as pessoas consideram existir nos seus países em termos de migração, criatividade e inovação”, declara Makuta.

Em resposta a este relatório, a Africa no Filter está a proceder ao lançamento da primeira agência de notícias do continente, que concentrará os seus esforços no tratamento de histórias sobre criatividade, inovação, arte e cultura e interesses humanos.

Descarregue o relatório “How African Media Covers Africa” aqui.

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