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Saiba o que fez Jesus dos 12 aos 30 anos

O filho de Maria poderá ter-se casado, como todos os judeus da altura, ou dedicado ao estudo dos evangelhos. Há quem defenda que Jesus tenha viajado até à Índia e ao Tibete

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Quando Jesus tinha 12 anos, foi a Jerusalém para a festa da Páscoa judaica e separou-se misteriosamente dos pais. José e Maria só se aperceberam de que o filho não estava com eles quando regressavam a Nazaré. No dia seguinte, decidiram voltar a Jerusalém. “E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e interrogando-os”, conta o Evangelho segundo S. Lucas. Jesus saiu do templo e voltou com José e Maria para Nazaré, e cresceu “em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens”.

 

Acaba assim o capítulo 2 desse evangelho. Quem passar para o capítulo seguinte, encontra João Baptista, nas águas do rio Jordão, a baptizar Jesus, “de quase 30 anos”. Segue-se a descrição de vários milagres, mas não há qualquer referência aos cerca de 18 anos anteriores, entre o episódio no templo de Jerusalém e a cerimónia no rio Jordão – nem ali, nem nos restantes capítulos do Evangelho segundo S. Lucas, nem em qualquer outro versículo do Novo Testamento.

Os quatro evangelhos, atribuídos aos discípulos Mateus e João, e a Marcos e Lucas, dois ajudantes do apóstolo Paulo, terão sido escritos por autores desconhecidos, nas últimas três décadas do século I, ou seja, cerca de 40 a 70 anos depois da morte na cruz. Mas não permitem reconstituir uma biografia completa de Jesus. Por isso, estes 18 anos – entre os 12 e os 30 – da sua vida continuam a ser um dos mistérios mais fascinantes e mais difíceis de desvendar por todos os investigadores.

Apesar dos feitos de Jesus descritos na Bíblia, os historiadores da época não lhe atribuíram grande importância. Quando morreu, era tão irrelevante como os dois assaltantes que foram crucificados ao mesmo tempo, cujos nomes são desconhecidos.

O historiador romano Flávio Josefo, nascido cerca de sete anos depois da morte de Jesus, escreveu a única história do judaísmo na Palestina do século I. Chama-se Antiguidades Judaicas e é uma fonte fundamental sobre este período, mas Cristo é alvo de apenas um parágrafo, em que são elogiadas as suas obras extraordinárias. E é um parágrafo suspeito: como o texto foi conservado por escribas cristãos, é possível que tenha sido adulterado para engrandecer a imagem do filho de Maria e José – é o que defende Ed Parish Sanders, autor de A Verdadeira História de Jesus e um dos mais conceituados especialistas no Novo Testamento.

De resto, há pouquíssimos documentos da época: não foi encontrado o processo contra Jesus nos arquivos romanos e quaisquer arquivos que existissem em Jerusalém terão sido destruídos durante uma guerra no fim do século I.

Dez anos após a sua morte, foram relatadas desordens entre judeus, provocadas pela dúvida sobre a importância de “Chrestos” (uma ligeira alteração à palavra grega “Christos”, correspondente à tradução hebraica do termo Messias). E o historiador Caio Tácito deu conta, duas décadas depois, da perseguição ordenada por Nero aos cristãos – um grupo com esta estranha “superstição” de assumir a devoção a um homem crucificado.

Apesar da importância destas referências para reconstituir o início do cristianismo, em nada ajudam a responder às dúvidas sobre o que terá sido a vida de Jesus nos anos ocultos. Como não há nada de irrefutável que possa ser dito sobre este assunto, a maioria dos estudiosos ignora essa imensa parte da sua vida, não analisando sequer as várias hipóteses que têm sido avançadas.

A mais conservadora, e a única oficialmente admitida pela Igreja Católica, é que tenha permanecido em Nazaré, com os pais, a aprofundar os seus estudos sobre os textos sagrados e a trabalhar como carpinteiro. A profissão é referida no Evangelho segundo S. Marcos, através da reacção de espanto dos nazarenos, quando Jesus começou a pregar na sinagoga: “De onde lhe vem tudo isto? Onde foi que arranjou tanta sabedoria? (…) Este homem não é o carpinteiro da Nazaré?”

Já no Evangelho segundo S. Mateus, Jesus não é descrito como carpinteiro, mas sim como filho do carpinteiro – uma alteração interpretada por alguns historiadores como motivada pelo pudor de atribuir aquela profissão a Cristo. Em rigor, ninguém consegue clarificar se era mesmo carpinteiro. O termo original em grego, tekton, pode designar também um pedreiro ou um mestre de obras, pelo que é possível que até ter cerca de 24 anos Jesus tenha participado na reconstrução de Séforis, a capital da Galileia, que ficava a uma hora de viagem da Nazaré.

Embora houvesse burros e camelos, a maioria das pessoas viajava a pé, em grupo, para melhor se defenderem dos perigos dos assaltos constantes e dos ataques de leões. Nazaré, onde Jesus terá vivido até à juventude, era uma aldeia no sopé de uma montanha, com cerca de 50 casas, na maioria ocupadas por famílias de pastores e agricultores, que trabalhavam no cultivo das uvas e das azeitonas.

Em Dezembro de 2009, uma escavação arqueológica desvendou o que se pensa ser a primeira casa de Nazaré do tempo de Jesus, uma habitação pequena onde residia uma família simples – e que certamente terá conhecido Jesus, uma vez que a povoação era tão pequena.

Os homens tinham uma esperança média de vida entre os 40 e os 45 anos, mas era ainda assim superior à das mulheres, pelo que muitos viúvos se casavam depois com mulheres mais novas. A mortalidade infantil atingia os 50% e uma simples ferida numa mão ou um problema dentário podia colocar qualquer pessoa em risco de vida.

A hipótese de Jesus ter sido pedreiro ou carpinteiro é a menos arriscada de todas, até porque era natural que o pai transmitisse ao filho o seu ofício. Mas, seguindo o mesmo critério do que seria natural, surge o problema do estado civil: todos os judeus deviam casar-se e ter filhos quando se aproximavam dos 20 anos, era quase uma obrigação para corresponder à bênção de Deus e para perpetuar o seu povo na Terra. Muito dificilmente Jesus poderia ter sido excepção, defendeu o professor americano de religião e filosofia William E. Phipps.

A pressão religiosa e social seria tão intensa e a obrigação seria tão implícita que dispensaria quaisquer referências na Bíblia. Seria assim razoável supor que Jesus se tivesse casado em Nazaré por volta dos 20 anos, e que tivesse abandonado a mulher e os filhos para se dedicar a espalhar a palavra de Deus no fim da vida. Esta tese foi posta em causa por investigadores que apontavam vários exemplos de outros judeus contemporâneos de Jesus que também optaram pelo celibato.

Entretanto, um novo argumento foi avançado pelo responsável pelo departamento de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, James Tabor, que trabalhou como consultor no filme de James Cameron sobre o túmulo encontrado em Jerusalém com ossadas que poderiam ser de Jesus, de Maria Madalena e de um filho de ambos, Judá.

Tabor diz que, apesar de o Novo Testamento não mencionar a mulher de Jesus, a primeira carta de Paulo aos coríntios refere que Pedro, os outros apóstolos e os irmãos do senhor andavam acompanhados pelas mulheres, pelo que as suas despesas também deviam ser suportadas pela comunidade. Esta prova de que os discípulos e os irmãos de Jesus eram casados não encontra eco em nenhuma passagem dos evangelhos. Exceptuando a alusão a uma sogra de Pedro, nunca há referências às mulheres, o que levou o investigador a traçar o paralelismo com Jesus – que também podia assim ser casado sem que isso fosse referido no Novo Testamento.

O episódio mais dúbio surge no Evangelho segundo S. Lucas, quando Maria de Betânia usa os seus cabelos para espalhar perfume de nardo, muito caro, nos pés de Jesus. Uma cena de “grande conteúdo erótico”, como assinala António Piñero, professor catedrático de Filologia Grega na Universidade Complutense de Madrid, no seu livro Jesus, a Vida Oculta.

Alguns investigadores dizem que Maria de Betânia e Maria Madalena são a mesma pessoa, mas a tese tem sido rejeitada pela Igreja Católica. A possível relação entre Jesus e Maria Madalena é referida em três evangelhos apócrifos – são documentos que, por terem sido elaborados muito depois da morte de Jesus ou por veicularem ideias que a Igreja considerava incorrectas, foram excluídos do Novo Testamento. A sua fiabilidade, na maioria dos casos, é de facto reduzida. Outro apócrifo, o Evangelho segundo S. Tomé, aponta Salomé como a esposa de Jesus.

Uma outra hipótese para ajudar a deslindar o mistério sobre estes 18 anos na vida de Jesus foi avançada por Bruce Chilton. Este professor catedrático de Cristianismo Primitivo admitiu que, aos 12 anos, Jesus não tivesse deixado o templo de Jerusalém para regressar a Nazaré com os pais, mas antes tivesse permanecido mais algum tempo na cidade, a viver como um vagabundo, e que depois se tivesse encontrado com João Baptista, pregador judeu e filho de uma prima de Maria.

Jesus teria assim passado estes anos nas margens do rio Jordão, a aprender os ensinamentos de João Baptista. Bruce Chilton acha que, se tivesse ficado a viver numa aldeia como Nazaré, Jesus dificilmente se teria transformado num “génio religioso apaixonado”.

Caso tenha crescido com João Baptista, a juventude de Jesus pode ter decorrido numa comunidade isolada, num regime de pobreza voluntária. Era assim que viviam os essénios, uma das seitas em que se dividiram os judeus, e a que teria pertencido o pregador que baptizou Cristo, conta a investigadora de assuntos religiosos e ex-freira Karen Armstrong no livro História de Deus. João Baptista foi mesmo descrito no Novo Testamento como um homem das cavernas, que vestia “peles de camelo” e “comia gafanhotos e mel silvestre”.

A impossibilidade de apresentar provas que confirmem este percurso leva a que a tese seja facilmente rebatida pelos outros investigadores, como o padre e teólogo catalão Armand Puig, autor de uma extensa biografia de Jesus: “Não há dúvida de que uma conclusão deste tipo facilita muito as coisas, uma vez que dá nome e lugar ao mestre de Jesus e ‘explica’ a sua formação e os seus conhecimentos. Não obstante, trata-se de uma proposta sem muitos indícios que a sustentem”.

O próprio Papa Bento XVI publicou em 2006 o livro Jesus de Nazaré, que tinha começado a escrever antes ainda de ser eleito no conclave do ano anterior. Na obra, o líder da Igreja reconhece que “é fundamental para a fé bíblica a referência a acontecimentos históricos reais”, mas critica as últimas reconstruções da imagem de Jesus com base na pesquisa histórico-crítica: “São muito mais a fotografia dos autores e dos seus ideais do que a reposição de um ícone que entretanto se tinha diluído”. A consequência, alerta, é o aumento da desconfiança em relação a Cristo. O livro de Bento XVI baseia-se exclusivamente nos evangelhos e começa logo com o baptizado, perto dos 30 anos.

O biblista e padre Armindo Vaz justifica a ausência de referências do Papa a este período entre os 12 e os 30 anos: “Normalmente não se diz nada sobre a infância e a juventude das outras grandes personagens bíblicas. Se não há nada nos evangelhos sobre esses anos, é porque não aconteceu nada de relevante.”

Uma outra tese que tem sido avançada para explicar como Jesus viveu estes anos implica uma longa viagem à Índia e ao Tibete. Parece mirabolante, mas é talvez a hipótese que tem maior sustentação documental: os monges do mosteiro budista de Himis, no Tibete, conservaram um manuscrito que relata como um profeta judeu, o Santo Issah (nome indiano para Jesus), passou a juventude com os seus antepassados do século I.

O documento foi copiado em 1887, a partir de dois processos com folhas amarelecidas, por Nicolas Notovitch, um jornalista e médico russo que visitou o mosteiro. O texto contém 244 versículos ou pequenos parágrafos, que o jornalista dividiu em 14 capítulos e publicou em 1894 num livro a que chamou A Vida Desconhecida de Jesus Cristo.

Aí conta-se que Jesus fugiu de casa quando tinha 13 anos e apanhou boleia de comerciantes, possivelmente pela Rota da Seda, em camelos, em direcção ao templo de Jagannath, no Sudeste da Índia, onde ficou durante seis anos com sacerdotes locais, a estudar os Vedas (escrituras hindus), a aprender a pregar, a curar doentes e a fazer exorcismos.

Depois pregou às castas mais pobres, o que terá desagradado às autoridades e o levou a sair da Índia e a passar os seis anos seguintes a estudar textos sagrados em mosteiros no Nepal e no Tibete, incluindo dois meses em Himis, onde Nicolas Notovitch encontrou o manuscrito.

O livro do jornalista russo foi um sucesso editorial, mas provocou enorme polémica e a autenticidade dos documentos foi posta em causa. Três décadas mais tarde, a existência do manuscrito foi confirmada por Swami Abhedananda, um religioso hindu.

O explorador e pintor russo Nicholas Roerich foi ainda mais longe: não só confirmou a existência do manuscrito, como organizou uma expedição à Ásia central com o filho mais velho, arqueólogo, e mais oito europeus e 36 nativos, em 102 camelos, cavalos e mulas – e em vários locais ouviram as histórias da presença de Jesus no território durante os anos de que o Novo Testamento não fala.

Mais recentemente, o próprio líder espiritual da religião hindu, o Shankaracharya, concedeu uma rara entrevista para o documentário Jesus na Índia, em que cita documentos antigos para confirmar a presença de Cristo na região. E acusou as autoridades católicas de ocultarem deliberadamente informações sobre esta viagem para não reconhecerem a influência hindu em Jesus: “Os cristãos não acreditam. Sabem que Jesus esteve desaparecido muitos anos. Onde esteve? Onde viveu? Por onde andou? Viveu em Caxemira. Viajou por toda a Índia. A verdade tem sido escondida.”

Paul Davids, o realizador deste filme, publicou um artigo no site Huffington Post onde se mostrava esperançado em contribuir para encontrar a pista que faltava para desvendar o mistério sobre estes 18 anos de Jesus: “Toda a gente tem direito ao cepticismo, mas quem rejeitar o desafio de considerar esta hipótese pode estar a privar-se de conhecer um puzzle extraordinário.”

Artigo retirado da Revista Sabado 25/12/17

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