Opinião
Rui Mangueira: a ausência de um homem que enobreceu Angola
Hoje não nos reunimos apenas para lamentar uma perda. Reunimo-nos para reconhecer uma vida que honrou Angola com discrição, inteligência e elevação moral. A partida de Rui Jorge Carneiro Mangueira, antigo Ministro da Justiça e dos Direitos Humanos e Embaixador da República de Angola, deixa um silêncio que não é vazio: é um silêncio carregado de significado, de memória e de gratidão.
Rui Mangueira foi um servidor público no sentido mais nobre da expressão. Serviu o Estado angolano com sentido de missão, representando o país no Reino Unido e noutras geografias do mundo árabe e do Médio Oriente, levando consigo não apenas a bandeira nacional, mas também uma postura de civilidade, ponderação e respeito. No exercício das funções de Ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, assumiu responsabilidades num sector sensível da vida nacional, onde a prudência, a firmeza e o equilíbrio são qualidades indispensáveis. Fê-lo com descrição e com consciência histórica.
Mas acima dos cargos, estava o homem. Um homem bom. Um homem humilde. Não a humildade ensaiada para os palcos do poder, mas a humildade serena de quem sabe ouvir, de quem fala sem arrogância, de quem compreende que a autoridade não precisa de ruído para se afirmar. Tinha a rara capacidade de dialogar com diferentes sensibilidades políticas e sociais, respeitando percursos distintos e reconhecendo que Angola é feita da diversidade das suas memórias e experiências.
Num país tantas vezes marcado por divisões e desconfianças, Rui Mangueira foi presença agregadora. Demonstrou que o patriotismo pode ser profundo sem ser estridente; que a defesa do Estado pode conviver com a delicadeza no trato; que o exercício do poder pode ser compatível com humanidade. A sua trajectória é testemunho de que é possível servir sem se servir, liderar sem humilhar, representar sem ostentar.
À família enlutada, apresento as mais sentidas condolências. Que encontrem consolo na certeza de que o vosso ente querido não viveu em vão. Viveu deixando marca, deixando exemplo, deixando respeito. A dor da perda é imensa, mas maior é a honra de ter partilhado a vida com alguém cuja presença enriqueceu não apenas os seus próximos, mas também a comunidade nacional.
Angola perde um quadro experiente. Perde um diplomata distinto. Perde um antigo Ministro. Mas, sobretudo, perde um homem cuja inteligência moral e cuja bondade discreta permanecerão como referência.
Que a sua memória nos inspire a cultivar mais diálogo, mais elevação e mais sentido de Estado.
Que descanse em paz.
