Crónica
Quem ama transfere: o amor agora tem IBAN
Dizem que o amor é cego. Em Angola, pelos vistos, não só vê como também faz contas, compara preços e exige comprovativo de rendimento. Hoje, o namoro já não é aquele espaço inocente de afectos espontâneos e promessas sussurradas à luz da lua. Não. Evoluímos. Agora é uma espécie de contrato informal, onde o coração entra, sim, mas o bolso tem sempre prioridade no debate.
A realidade social, essa professora dura e sem piedade, ensina rapidamente que nascer bonita, com curvas bem distribuídas e presença de “impacto visual”, não é apenas uma bênção genética. É, acima de tudo, um activo económico. Uma espécie de capital inicial que abre portas para o tal “mercado das transações afectivas”. Porque, sejamos honestos, chamar-lhe “relacionamento” já começa a soar ingénuo demais.
E os românticos? Ah, esses vivem como relíquias de museu. São aqueles que ainda acreditam que flores, poemas e mensagens de “bom dia, meu amor” têm algum valor competitivo. Pobres almas. Esqueceram-se de actualizar o software emocional. Hoje, o algoritmo do amor exige transferências, não metáforas. Quer consistência financeira, não declarações apaixonadas.
A regra é simples: proporcionalidade económica produz felicidade. Quanto mais robusto o orçamento, mais intensa a “química”. É quase científico. Uma espécie de nova lei social que poderia muito bem ser ensinada nas escolas: “Não é sobre quem te ama, mas sobre quem te consegue sustentar emocional… e logisticamente.”
Entretanto, fingimos todos muito bem. Fazemos de conta que não estamos a assistir a uma transformação silenciosa, onde o afecto vai sendo lentamente substituído por conveniência. A tal ponto que já nem soa absurdo levantar uma questão desconfortável: será que a prostituição formal, legalizada, não seria apenas um acto de honestidade colectiva? Pelo menos acabaríamos com a hipocrisia. Cada um saberia exactamente o papel que desempenha e o preço que lhe está associado.
Mas não. Preferimos o teatro. A encenação romântica com recibo invisível. A paixão que vem com cláusulas implícitas. O “amo-te” que, no fundo, quer dizer “garantes-me estabilidade financeira?”
E no meio disso tudo, seguimos aplaudindo os novos símbolos do amor moderno. Aqueles momentos épicos do tipo “me paga cabelo de 200 mil”, como se fossem gestos supremos de afecto e não simples demonstrações de capacidade de pagamento. O romance virou prestação. O carinho virou investimento.
No final, talvez os românticos até sejam felizes… mas apenas se aceitarem uma coisa essencial: neste novo mercado, o amor não morreu. Só mudou de moeda.
