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Crónica

Quando Ormuz, no Irão, passa por Kibala, no Cuanza Sul

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Numa das aulas mais intensas que tivemos na universidade, na cadeira de um dos professores mais respeitados do país, a discussão começou quase como um debate aceso: “O Estreito de Ormuz pode parar o mundo?”,  perguntou ele, olhando fixamente para a turma.

A conversa na turma,  voltou-me quase como memória recente, depois de uma viagem que fiz de Luanda a Menongue por estrada 24 horas dentro de um autocarro, onde o cansaço e as conversas se misturam com o barulho do motor e os solavancos da via. Curiosamente, entre os passageiros, o tema também girava em torno do mundo, da fé e dos conflitos.

Uma das passageiras, que entrou na Kibala, chamou-me particular atenção. Disse ser estudante numa universidade do Huambo, onde acabámos por deixá-la depois de cerca de 10 horas de viagem. Havia nela uma forma firme de falar  cruzava o cristianismo com os acontecimentos no Médio Oriente como quem tenta encontrar sentido num mundo em tensão.

A estrada de Luanda até Menongue (passando pelo Cuanza Norte, Cuanza Sul, Huambo e Bié), diga-se, não é um mar de rosas. São buracos, desvios e surpresas constantes,  mas isso ficará para uma próxima crónica. O certo é que, num desses buracos que o motorista não conseguiu evitar, o autocarro sacudiu com força. A jovem apertou a minha mão, assustada, e gritou: “Deus de Israel, proteja-me!”

Foi nesse instante que me lembrei da aula.

Do silêncio inicial. Das respostas rápidas. E da correção do professor: “Vocês ainda estão a pensar pequeno. Ormuz não é só petróleo. É poder, é alimento, é futuro.”

Essa frase ecoa agora com mais força, num momento em que o Estreito de Ormuz se tornou o epicentro de uma das maiores crises geopolíticas de 2026, com o Irão a testar os limites do sistema internacional e os Estados Unidos a enfrentarem uma realidade mais complexa do que a retórica militar costuma admitir.

Ormuz é, na prática, uma espécie de “interruptor invisível” da economia global. Por ali passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo e uma fatia ainda mais sensível do gás natural liquefeito. Mas há um detalhe frequentemente ignorado: o estreito também sustenta o equilíbrio alimentar do planeta. Fertilizantes essenciais atravessam aquela faixa de mar estreita, alimentando cadeias agrícolas que sustentam bilhões de pessoas.

E é aqui que a geografia se transforma em estratégia. Com apenas algumas dezenas de quilómetros de largura e corredores marítimos extremamente limitados o espaço favorece quem conhece o terreno. O Irão não precisa de dominar os oceanos; basta-lhe tornar o risco inaceitável. Pequenas embarcações, minas navais e mísseis costeiros criam uma lógica de “guerra assimétrica” que neutraliza, em parte, a superioridade tecnológica das grandes potências.

Na narrativa tradicional, os Estados Unidos aparecem como o garante da segurança marítima global. Mas a realidade, como discutíamos naquela aula, é menos linear. Proteger todos os navios que atravessam Ormuz é logisticamente impraticável. E mais: qualquer escalada militar tem custos políticos internos sobretudo quando o preço do combustível sobe e pressiona o eleitorado.

Há ainda um outro elemento silencioso, o mundo já não responde de forma uniforme. Aliados históricos mostram hesitação, economias dependentes de energia evitam confrontos directos, e novas alianças comerciais redesenham rotas. O bloqueio selectivo  permitindo a passagem de países “amigos”  revela que o controlo não é apenas militar, mas também económico e diplomático.

O resultado é um efeito dominó. Os preços da energia disparam, cadeias de abastecimento ajustam-se à pressa, e países distantes do Golfo Pérsico sentem impactos reais no custo de vida. O que acontece em Ormuz não fica em Ormuz  espalha-se pelos mercados, pelas bombas de combustível, pelos campos agrícolas.

No fim daquela aula, o professor deixou-nos uma provocação que hoje soa quase profética: “O futuro do sector energético não será decidido apenas por quem produz mais, mas por quem controla os pontos de passagem.”

Talvez seja essa a grande lição desta crise. Num mundo interdependente, o poder não está apenas nos recursos, mas nos gargalos. E enquanto o Estreito de Ormuz continuar a ser a artéria por onde circula a energia e parte da sobrevivência global qualquer tensão ali será, inevitavelmente, uma tensão no próprio coração do mundo. E Angola nossa pátria amada?

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