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Pobre explora pobre

Ladislau Neves Francisco

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A ideia de exploração entre os homens, acompanha a sociedade desde bem cedo. Karl  Marx, ao abordar a questão das classes sociais, defendeu que apesar de existir uma interdependência entre as duas classes (burguesia e proletariado), existe igualmente uma exploração, quase que natural, invisível e inevitável entre estas mesmas duas classes.

Nos dias de hoje, a ideia atrás dos pressupostos das classes sociais está no mínimo diferente, o que originou uma disseminação de várias classes oriundas das duas iniciais: Burguesia e proletariado. Não obstante a isso, acrescemos a ideia de já não apenas serem ricos e pobres, são muitas as estratificações das classes (alta, média, baixa).

O que é verdade e nem mesmo as muitas fusões e caras que as classes sociais ganharam é que a exploração entre estes novos não pobres (classe média baixa), mas também não ricos (classe média alta) persiste. E esta exploração está presente em tudo, é feita de todas as formas, em todos os lugares e quase que em todos os sentidos possíveis. Vejamos, com até alguma  curiosidade, a questão dos transportes para- públicos (candongueiros) que a dada altura, para fazer o mesmo trajecto, aumentam o preço da corrida por causa da muita procura. Não é apenas o fenómeno da procura e da oferta que leva ao aumento pontual e até ilegal, é mesmo uma exploração entre pobres. Entre pobres, porque não é difícil de concluir que um rico, no verdadeiro sentido da palavra, não usa de tais serviços. Os pobres sim, aqui e ali, apesar de terem carro, se veem na necessidade de ter de utilizar o serviço de táxi, candongueiro.

A questão do aumento das corridas dos candongueiros ainda vem acompanhada dos famosos “emagrece” que consubstancia ela mesma também um acto de exploração, pagar o preço da corrida, quando não se senta num lugar cômodo e aceitavelmente confortável, o que de resto é parte do acordo.

Uma questão que também merece toda atenção, não só por ser factual e por dar vida a ideia, mas porque também é ilegal, é a exploração presente na relação entre os policias fiscais e as zungueiras, sendo que aqui está claro que uma vende para subsistir e porque também não tem alternativa, e completa o “pato” com o pouco ou quase nada que ganha, mas mesmo assim, é alvo de uma exploração quase desumana de um segundo pobre igual a ela, que apesar de ter emprego, passa a vida apertado e quase que sem alternativa senão, apertar quem conseguir apertar e onde for possível apertar.

Na senda dos policias fiscais, podemos ainda adicionar ao “bolo” a questão bem presente, relacionada com embargo de obras e/ou com os alvarás comerciais. Nas duas, apesar das naturais diferenças, há igualmente a exploração entre pobres. Um fiscal que “tem fome”, e um comerciante que sente a mesma fome e vai tentado com o impossível manter um negócio. É assim que quase não tem dinheiro, nem mesmo para manter actualizada a licença comercial (alvará), mas mesmo assim, é presa da exploração que estranhamente, apenas se faz sentir com mais força entre os pobres.

No primeiro parágrafo temos o que podemos chamar estofo científico da coisa, o pensamento de Karl Marx, mas nem mesmo Marx podia prever que tal exploração deixasse de ser apenas entre ricos e pobres. Hoje ela está presente até nas questões impensáveis, vejamos: Saiste de casa para tratar um documento; tudo normal. Mas a demora para tratar tal documento sugere que seja melhor ser explorado, dar um extra a quem o atende, para que faça o seu trabalho, atender com celeridade! E isto, quando não se tiver de pagar os, digamos, pontas de lança, que entram e tratam por ti.

A deprimente relação entre professor e aluno é mais uma dobra desde triste universo no qual o “mais esperto” explora o outro, que nem menos esperto é, está apenas, e pontualmente em situação de desvantagem: O professor que deve transmitir conhecimento e avaliar o nível de aprendizado de cada estudante/aluno, sai do plano de nobreza e se vai colocar numa situação desprezível, a de comercializar notas e/ou pareceres. É tão baixo que nem a fome justifica. É um nível impensável de danos pontuais e em potencial que tal atitude pode causar.

Os pontos acima chocam, mas ainda nem abordamos a questão da famosa “gasosa” como meio de entendimento alí onde ela é mais presente. Então vejamos:  A gasosa que gira entre taxistas e agentes reguladores de trânsito são igualmente uma mostra da exploração entre pobres. É que de um lado está um taxista, candongueiro, que nada mais tem senão aquele carro que quase nunca é dele e que para tudo serve, inclusive como meio de sustento da família, e por isso e mesmo com isso, passa alvo das pretensões maliciosas do agente que pelo acto deixa cair que se tem ordenado, este não enche as medidas e portanto, não chega para sustentar a família e responder as muitas necessidades… Necessidades estas que são tantas, ao ponto de o levar a tal promiscuidade.

Trouxemos  alguns casos claros de exploração entre pobres. Mas nada vem do nada. Estes todos têm uma razão de ser, a FOME! É que a fome clarifica o correcto e o errado, a fome dá a todos a coragem extra para ir atrás do pão, não importando a forma ou a moralidade dos actos. Estas muitas situações, são portanto, fruto das muitas insuficiências estruturais da nossa sociedade. É que falta ordenado que responda a todas as vontades e caprichos, mas também falta moralidade que afaste a necessidade que leva da fome à solução de se deixar corromper e explorar um outro igual, que pouco ou nada tem.

 

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