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Pensando Angola: O Renascimento do Patriotismo

Lazarino Poulson

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Não vale nada um povo que não sabe defender a honra da sua pátria”

Friedrich Schiller

Quando eu era criança, na escola primária, era obrigado a cantar o Hino Nacional. Não hasteávamos a bandeira, todavia, a “camarada professora”, exigia que cantássemos, quase diariamente, de pé, a canção de Rui Mingas musicada do poema de Manuel Rui Monteiro. Não sabíamos naquela altura, que estes dois Senhores foram os autores do tão belo Símbolo Nacional.

“ Ó Pátria nunca mais esqueceremos.. “.

Cantávamos alto e bom som, para gáudio da professora, e, no início para angústia nossa, todavia, mais tarde, com imensa satisfação e orgulho, cantávamos, em casa, nas reuniões, e em todo lugar que fosse formalmente exigido, ou ainda quando os “palancas negras”, se perfilhassem antes de um jogo importante da seleção nacional de futebol sénior masculina. O Hino Nacional é, pela imposição da minha escola primária, o símbolo nacional que mais me identifico. A bandeira, já nos foi ensinada de forma dúbia e precária. Por exemplo, confundíamos os significado das cores. Uns diziam que o preto, significava o continente e outros alegavam que era o “luto”, pelo sangue derramado na luta de libertação nacional. A cor amarela era, para uns, o sol e, para outros, significava a luz do progresso. A cor vermelha era o sangue, para os mais emotivos, e, para ideólogos, representava o marxismo ou socialismo. Não havia unanimidade no ensino primário, quanto ao significado da composição da bandeira, porque os professores ensinam as cores de acordo com as convicções que tinham das várias opções acima expostas e não só. Parece-me que não havia nada nos conteúdos vindos do Ministério da Educação, a respeito do significado das cores da bandeira, porque lá no bairro, entre amigos de infância, nas nossas discussões, cada um defendia o que o seu professor ensinava, e dávamos conta que não havia consenso no significado das cores deste símbolo importante da República. Mas, o Hino Nacional era cantado da mesma forma, mesmo conteúdo, mesma melodia, ensaiávamos, decorando, mesmo não sabendo o significado de muitas das suas palavras e versos, todavia, de tantas repetições na escola e fora dela, até hoje preservo na mente a música e as palavras todas. Quanto a bandeira ainda tropeço e faço confusão, amiúde, quanto ao significado das suas cores e o mesmo se passa com a Insígnia: a roda dentada, a enxada, etc. tal como as cores, o significado da composição insígnia , passaram ao lado do conteúdo escolar da minha primária feita nos anos 1978-1982.
Hoje os Símbolos Nacionais estão consagrados na Constituição no artigo 18.
Mas tarde, foi-nos ensinado, ainda na escola, o significado da defesa da pátria e do heroísmo dos nossos antepassados, e os feitos históricos dos libertadores da nossa querida pátria do domínio colonial.
Mas esta incursão pela minha infância tem o propósito de introduzir o tema em apreciação – patriotismo.

O patriotismo é o sentimento de orgulho, amor, devoção à pátria, os seus símbolos ( bandeira, hino, brasão, riquezas naturais e património material e imaterial, dentre outros) e ao seu povo. É razão do amor dos que quererem servir o seu país e ser solidários com os seus compatriotas.
A palavra portuguesa patriotismo tem suas origens no latim patriota, por sua vez derivado do grego “ patriõtês”, “ do mesmo país”. Este, têm como radical “ patris “, cujo significado é terra natal ou “terra paterna”.

Ao longo da história, o amor à pátria vinha sendo um simples apego ao solo. Tal noção mudou no século XVIII, que passou a assimilar noções de costume e tradições, o orgulho da própria história e a devoção ao seu bem-estar.

Através de atitudes de devoção para com a sua pátria, pode-se identificar um patriota.
O historiador Lord Acton, afirmou que “ o patriotismo prende-se com os deveres morais que temos para com a comunidade política”. Como quase todos os conceitos políticos e filosóficos, também o patriotismo é alvo de inúmeras conceptualizações conflituantes que, segundo Alasdair Maclntyre, “ocorrem num espectro que tem num extremo a ideia de que o patriotismo é uma virtude e, noutro, que é um vicio”. Resumidamente, pode-se definir o patriotismo como o amor pelo próprio país identificação com este e preocupação com os nossos compatriotas.
Não é despiciendo referir a comum sobreposição e confusão com o nacionalismo, cuja distinção farei mais à frente.
O patriotismo é o espírito de solidariedade entre pessoas que tenham interesses comuns, constituindo um Estado, e que, ao viver sob mesmas leis, as respeitam com ânimo maior que o ânimo que empregam na defesa dos seus interesses privados e as ambições particulares, sem avareza ou egoísmo. Estas pessoas consideram que as suas riquezas particulares e o seu bem-estar também constituem um tesouro público, e, por outro lado, policiam para que o tesouro realmente público não se torne património de particulares. É um sentimento que, ao lado das leis, sustentam um Estado. Toda vez que tais pessoas deixam de cumprir as leis, elas enfraquecem o Estado.
No entanto, a quem sugere que o verdadeiro patriotismo se traduz no impulso para defender a pátria, pode e deve estar contra uma injusta opressão estatal, principalmente quando esteja a tomar medidas que põem em risco as liberdades fundamentais, a justiça social, a independência nacional e a sua autodeterminação.
Há diferentes tipos de patriotismo, e diferentes pessoas que são patriotas, diferentes maneiras de mostrar como são devotos ao seu lugar de origem, como por exemplo:

i) Cultura: cantores, compositores, poetas, pintores e artistas no geral que são famosos no mundo inteiro, espalham o encanto do país em que vivem. E não negam as suas raízes;

ii) Guerra: pessoas que se oferecem ou são rigorosamente selecionadas para defender o seu país em uma guerra;

iii) Desporto: há grande parte da população que tem orgulho da sua pátria quando ela está representada por atletas do seu país em competições internacionais;

iv ) políticos: uma classe que luta entre si para manter o controlo do Estado. Constitui a classe que varia mais nos extremos. Encontramos poucos políticos que são verdadeiros patriotas, mas surpreendentemente muitos não o são;

v) cidadão comum: há muitos cidadãos comuns que não têm feitos tão relevantes com alcance nacional, todavia as suas acções impactam na sua comunidade, bairro ou povoação. Refiro-me ao professor da aldeia, que em baixo da árvore ensina a ler , escrever e a fazer contas, os meninos e até adultos, do enfermeiro ou médico que, em condições adversas, socorrem os pacientes, do activista na ONG local que instrui e orienta a população de uma determinada localidade agreste, do Soba da aldeia que controla os ímpetos tradicionais contra -legem, entre outros anônimos que devotam o seu amor ao próximo e concomitante à pátria, de tal sorte de deveríamos instituir um monomento ao “Cidadão Desconhecido “ tal como existe para o “Soldado Desconhecido “ para fazer lembrar que uma nação não é só protegida pelos soldados e generais, mas também pelos “exército de cidadãos comuns “ , que emprestam o seu saber e esforço para própria existência da nação.E mais: ampliar as tarefas do Estado, através de uma “lei da promoção dos deveres patrióticos”, nos termos do q) do artigo 21 da Constituição da República de Angola.

Todavia, não há bela sem se não, e o patriotismo é objecto de profundas críticas desde pelo menos o século XVIII, sobretudo pela manipulação deste e daqueles que a professam em nome de interesses e ideologias específicos. Sobre isso, é famosa a frase Samuel Johnson de que o “ o patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Contudo, e apesar destas críticas, o patriotismo sobrevive e é hoje, a par dos direitos humanos, um dos valores mais perenes e fundamentais da existência da espécie humana.

Mas muitas vezes o nacionalismo é confundido com o patriotismo. Porém, podemos dizer que o nacionalismo é considerado uma ideologia ou um idealismo que leva as pessoas a serem patriotas. O nacionalismo tem várias acepções dentre elas:

i) Salvaguarda dos interesses e exaltação dos valores nacionais;

ii) Sentimento de pertencer a um grupo por vínculos radicais, linguísticos e históricos, que reivindica o direito de formar uma nação autónoma;

iii) ideologia que enaltece o estado nacional como forma ideal da organização política , com as suas exigências absurdas de lealdade por parte dos cidadãos.

Ser nacionalista não implica algum ponto de vista político particular, à excepção de uma opinião de nação como um princípio fundamentalmente na política.
Agora, ser um patriota implica fazer algo de bom para o país ou nação.

Aqui trazidos, vale apenas contextualizar o patriotismo entre nós.
No período do Partido Único, como dissemos noutro lugar, ensinaram-nos, na escola, e éramos obrigados a exaltar os Símbolos Nacionais nas reuniões e em ocasiões oficiais. Não era uma educação espartana, mas no tocante à imposição dos símbolos da pátria ( e também do partido no poder) não andavam distante disso. Ensinaram-nos, para além dos símbolos, o amor e a solidariedade ao próximo e ao nosso meio ( nossa pátria) que se traduzia nas campanhas voluntárias ( entenda-se, sem remuneração ) de vacinação, de limpeza (o famoso sábado vermelho), de combate aos acidentes rodoviários, da luta contra o analfabetismo, contra a discriminação racial e social, contra a desigualdade da entre homem e mulher, contra o obscurantismo, das campanhas de apoio a criança abandonada ( meninos de rua), e dos refugiados, do amor ao nosso solo pátrio, das nossas tradições, as nossas riquezas e belezas naturais etc.
Porém, com advento da democracia, nos anos 1990, a rigor no ensino dos símbolos e valores patrióticos, diminuiu. E com o alcance da paz em 2002, então a educação “patriótica” esfumou-se quase que por completo. E este abrandamento continuo a nível do sistema educativo, teve igual correspondência a nível social. A nível político, houve, por altura da revisão constitucional, um choque na classe política sobre os Símbolos Nacionais. A Oposição, capitaneado pela UNITA, que durante o período da guerra civil criou um quase “Estado a parte”, não se revia nos Símbolos Nacionais, alegando que eram imposições do MPLA , partido que governa Angola desde a independência nacional. Depois de muitas discussões, embora não houvesse consenso, mas a “ditadura da maioria “imperou, como é praxe em democrática.
Embora sendo apenas a vertente dos Símbolos Nacionais que destaco, todavia, eles têm o mérito de representar o estado de alma dos cidadãos. Quanto mais a sociedade se revê e exalta os Símbolos Nacionais, maior é os valores patrióticos que carregam. Há um tempo a esta parte, sobretudo nos últimos nove anos ( depois da aprovação da Constituição da República de Angola), após a discussão dos Símbolos Nacionais, estes passaram ao esquecimento. Pesa embora se hasteie a bandeira e se cante o Hino Nacional nas actividades oficiais do Estado, mas não há a exaltação destes Símbolos Nacionais como ocorria na minha infância. Os políticos cumprem apenas o formalismo, a sociedade assiste impávida e serena e a nação perde com isso.
Hoje o quadro não é animador, exaltou-se, nos últimos anos, outros aspectos na actividade humana de pouca nobreza, como ganhar dinheiro e enriquecer, obtenção de vantagens fáceis, o empreendedorismo apressado, , as publicidades remoneradas, o individualismo, o exibicionismo e a adoração a Deus. Como disse o poeta no passado, “ a religião é o ópio do Povo. Desta degradação acentuada dos valores patrióticos e morais, a religião ganhou terreno e multiplicou-se em milhares de igrejas. Este fenómeno massivo de amparo social é resultado da ausência dos valores patrióticos e morais perdidos na empreitada efusiva que embarcamos, enganados pelo Boom económico efêmero de petróleo-dólares, “na conquista de um lugar ilusório qualquer, de estereótipo ocidental cravado no nosso imaginário colectivo”.
Perdemos muito, o dinheiro, certo prestígio, amigos e aliados, perdemos mas não tudo.
Por isso, é altura do verdadeiro resgate dos valores patrióticos, começando por ensinar na escola, os Símbolos Nacionais de forma obrigatória e regular, passar para a sociedade a ideia de nação, não de divisão, reforçar o poder e prestígio das instituições públicas, reganhar a confiança do sector bancário internacional, através atribuição de independência ao Banco Central, democratizar a sociedade em todos os aspectos, celebrar o passado, enaltecendo todas figuras históricas, e olhar para o futuro como um lugar comum para todos os angolanos. E como bem disse John Kennedy, “ não pergunte o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunte o que podes tu fazer por ela. E, por agora, mais não digo …

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