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Opinião

Papa Leão XIV chama à consciência moral e à urgência política em Angola

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Termina hoje, 21 de Abril, a visita do Papa Leão XIV a Angola. Uma presença de acompanhamento pastoral, com intervenções consistentes, mas que se revela, acima de tudo, como uma visita de forte densidade ética e implicações políticas. As suas palavras não devem ser lidas apenas como um momento espiritual ou protocolar; tratam-se de discursos que convocam o país a confrontar-se consigo próprio nas suas fragilidades, contradições e responsabilidades colectivas.

Eleito após o falecimento do Papa Francisco, o novo líder da Igreja Católica tem procurado afirmar um pontificado marcado pela continuidade doutrinária e, simultaneamente, por uma ênfase renovada na responsabilidade ética dos Estados e das sociedades. A sua presença em Angola inscreve-se nessa lógica: mais do que uma visita simbólica, um gesto político no sentido mais amplo do termo.

Um dos momentos mais emblemáticos ocorreu na província da Lunda Sul, onde o Santo Padre apelou ao respeito pelos idosos. Segundo afirmou, são eles os detentores da sabedoria colectiva, e sem essa sabedoria torna-se impossível conhecer a própria história. Esta observação, aparentemente simples, encerra uma profundidade estrutural: uma sociedade que marginaliza os seus mais velhos arrisca-se a perder a memória, a identidade e a capacidade de projectar o futuro.

Ao colocar os mais vulneráveis no centro da sua mensagem, o Pontífice recupera um princípio basilar da Santa Sé: a dignidade humana como critério orientador de qualquer projeto de desenvolvimento. Num país onde o crescimento económico convive com desigualdades persistentes, esta interpelação não é apenas moral é estrutural. Obriga a questionar até que ponto as políticas públicas têm sido capazes de converter riqueza em bem-estar social efectivo.

Mais do que isso, o Papa trouxe à superfície uma questão incontornável: a necessidade de um diálogo político genuíno. Num contexto em que a retórica frequentemente substitui a prática, o apelo à reconciliação nacional surge como um lembrete de que a paz não se esgota na ausência de conflito armado. Ela constrói-se diariamente, através da inclusão, da escuta mútua e do reconhecimento do outro como interlocutor legítimo.

Este ponto é particularmente sensível. Angola carrega ainda marcas profundas do seu passado, nomeadamente da Guerra Civil Angolana, e, apesar dos avanços institucionais, persistem sinais de desconfiança entre os principais atores políticos e sociais. A mensagem papal, nesse sentido, funciona como um espelho: revela não apenas o que o país é, mas também o que ainda não conseguiu ser.

Outro elemento relevante foi a valorização dos idosos, frequentemente relegados para a periferia das políticas públicas. Ao destacá-los como guardiões da memória e da identidade colectiva, o Papa reforça uma ideia central também presente na encíclica Fratelli Tutti: não há futuro sustentável sem enraizamento na história e sem solidariedade intergeracional.

No plano político, a exortação à responsabilidade ética dos governantes assume particular relevância. Num ambiente global marcado por crises de confiança nas instituições, a insistência na transparência, na prestação de contas e no compromisso com o bem comum constitui um desafio direto às elites políticas, frequentemente criticadas pelo distanciamento face às reais necessidades da população.

Por fim, a mensagem dirigida à juventude merece destaque. Num país onde a maioria da população é jovem, o apelo ao protagonismo e à esperança pode ser interpretado como um convite à participação ativa na vida pública. Contudo, esse apelo só será eficaz se acompanhado por condições concretas: acesso à educação de qualidade, oportunidades de emprego e espaços efetivos de expressão cívica.

Em síntese, a intervenção do Papa Leão XIV em Angola ultrapassa o domínio religioso e inscreve-se no campo da consciência nacional. Não apresenta soluções técnicas nem programas de governação, mas propõe algo mais exigente: um quadro ético a partir do qual essas soluções devem ser pensadas.

Resta saber se o país está disposto a escutar e, sobretudo, a agir.

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