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Opinião

“Palavras convencem, exemplos arrastam”

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Rita, uma mãe «exemplar», como sempre acorda cedinho e antes de ir trabalhar, diz à filha, Weza, para que arrume o seu quarto e organize os seus brinquedos quando terminar de brincar.

Quando chega a casa, exausta, vai em sono tranquilo e nem mesmo consegue tirar os sapatos, dada a jornada de duras horas de trabalho. No entanto, quem leva os sapatos para o seu quarto é a filha, assim como a louça em que lhe fora servida a refeição, antes de dormir. E assim é todos os dias.

Eis que num belo dia, e como muitas vezes a mãe fazia, na frente das amigas da sua progenitora, Weza pergunta: mamã posso arrumar o quarto mais tarde?

Por quê? Responde Rita irritada e com o pescoço cheio de veias e cara enrugada. «Vou te pisar…você me sabe já. Desaparece daqui!», acrescenta com favas finais. Revoltada, com cara de medo mas com um bom disfarce de coragem, Weza engole o cuspe entalado na laringe e diz: hoje primeiro vamos arrumar o quarto da mamã. Já arrumei os sapatos de manhã e corrí com as baratas que ficavam sob a cômoda. Mas ainda há muito cocó de rato espalhado pelo chão e roupas sujas, bem como toalhas húmidas por toda a cama.

Há alguém que se disponibilize em «pisar» a mamãe Rita?

A frase que dá título ao nosso artigo, extraída de Confúcio, é de indesmentível realce para quem queira impactar, educar e transformar. Muitas são as reclamações de pais cujos filhos, segundo os mesmos, adoptam comportamentos que não advêm dos orientados por eles. Mas em considerável parte dos casos, os filhos repetem apenas as atitudes dos pais.

Parece questiúncula o posicionamento da pequena Weza, mas talvez a mãe devesse entender que o exemplo dela é mais impactante do que os seus discursos, já que o ser humano internaliza a sua forma de agir a partir da sua percepção quanto à maneira com quem agem as pessoas à sua volta. Não se concebe a ideia como absoluta, mas verdade se diga, o prolóquio cristão «faça o que eu digo e não o que eu faço» apresenta elevadíssimas hipóteses de se ver reduzida a cinzas, especificamente num ambiente de comunicação gerativo-transformacional como o da pequena narrativa pela ambígua e confusa forma como a Rita age.

Se quando estiver irritado o pai der pontapés aos electrodomésticos pelo seu mal funcionamento, é muito provável que a criança vá agir da mesma maneira ou próximo a isto com os brinquedos. No entanto, os pais não percebem, maior parte das vezes, que «ajudam» os filhos a desencadearem tais comportamentos como os pontapés aos brinquedos porque é muito difícil que eles estabeleçam um elo entre as acções dos filhos e as suas, já que é trabalhoso se lembrar de um acto que para eles é tão irrelevante e feito em momentos tão específicos.

Assim, uma atitude aparentemente simples pode causar impacto extremamente negativo para a criança é o que acontece quando o pai ou a mãe pedem ao filho para atender quem está à porta ou ao telemóvel e dizer que os pais não estão em casa. O que de per si traduz-se na mente da criança que mentiras são válidas para escapulir de uma ou outra situação.

Há necessidade de uma autocrítica, em que os pais avaliem os seus próprios comportamentos e buscar neles a resposta para certos comportamentos e atitudes indesejados dos seus filhos. Não pode um pai querer que o seu filho não grite com os colegas na escola, com os amigos na rua, ou mesmo com os irmãos, primos e outros familiares, quando em casa a gritaria é vista com normal. Pais que muito proferem palavrões, indicam aos filhos que devem fazê-lo, mesmo que não percebam.

Aqui cola e rola como a bola a sentença «filho de peixe, peixinho é» mesmo que em sentido sensível e subjectivo. Pois ser pai é educar pelo exemplo, transmitir o que aprendeu ao longo da vida. E para reflexão, os seus exemplos (intencionais ou não) aproximam ou afugentam as pessoas? Fortificam ou enfraquecem relações?

Há pouquíssimas razões para discordar de Schweitzer ao rebater-se na ideia de «dar o exemplo não é a melhor forma de educar. É a única». O nosso exemplo deve comunicar aquilo que somos, que pretendemos que as pessoas percebam e que seja proveitoso ou não para elas. Essas pessoas são as que, geralmente nos rodeiam.

O nosso exemplo influencia para o bem ou para o mal. O pai gabarola quer um filho gabarola, do mesmo modo que um pai agressivo está com trunfos em ouro para que o filho se «saia bem» nesta empreitada desviada. O líder atrasado e dorminhoco cria um grupo empestecido de preguiça, lentidão e mal estar constante. O pastor materialista abre caminho para uma igreja adoradora de bens materiais. É pelo exemplo que se lidera, orienta e convive com uma equipa, colaboradores, crentes e até amigos. E se comunicação é o que os outros percebem de nós, é urgente pensarmos como os outros nos veem pelos exemplos que damos ou representamos?

Esbarra muitas vezes dentre os pais, palavras como: demos tudo, o que faltou? Por que eles não nos ouvem? Só pode ser azar. Esta pessoa não é o nosso filho. Quando outras questões como: de que jeito nos portamos com ele? O que realmente necessitava de nós? Como nos portávamos diante dele.

Os conflitos geracionais, em grande medida, surgem de exemplos que não foram dados, valores não transmitidos, acções não conseguidas. Mais do que o pai querer que o filho leia um livro, é o próprio pai ler um livro. Mais do que Rita pedir para arrumar o quarto era tão necessário que Weza visse o quarto da mãe arrumado. Mais do que falar é fazer.

Lembremo-nos que pais que nunca elogiam, não recebem elogios, não se desculpam, não ouvirão os seus filhos a pedirem desculpas. Não desejam bom apetite, não receberão os mesmos votos, não saúdam também não serão saudados. O nosso exemplo é a nossa educação não gritada mas transformadora.

 Por Juélcio Santos

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