Opinião
Pacheco não perdeu o debate
Em Portugal, mais concretamente na tragédia da ponte de Entre-os-Rios, em de 4 de Março de 2001, morreram 59 pessoas. Jorge Coelho era então ministro das infraestruturas. Depois do episódio, demitiu-se. Esse gesto raro de responsabilidade política despertou em mim o interesse pela política não apenas como palco de discursos, mas como espaço de responsabilidade perante vidas humanas. Desde então sigo, com atenção, os principais atores da política portuguesa.
No dia 13 de Abril, as 22 horas, na CNN-Portugal, assisti ao debate entre André Ventura e Pacheco Pereira. Vi até onde pude, naturalmente. Pacheco, fiel ao seu estilo, procurou debater com um ar pedagógico, trazendo memória histórica e rigor. Ventura, pelo contrário, queria o espetáculo do populismo e conseguiu. Sustentar o não reconhecimento das atrocidades coloniais, reduzindo séculos de violência à ideia de que “Portugal construiu igrejas, escolas e deixou civilização”, é o exagero da estupidez ou, melhor dito, a decadência de um político que reivindica holofotes
A história mostra-nos outra realidade: sem desmerecer Portugal, são precisamente as ex-colónias portuguesas as mais pobres e desorganizadas. O legado colonial não foi apenas “civilização”, mas também dependência, fragilidade institucional e desigualdade estrutural. É por isso estranho ouvir a crítica portuguesa dizer que Pacheco Pereira perdeu o debate.
Na verdade, o que se passou foi uma diferença entre conteúdo e forma:
• Pacheco Pereira trouxe substância: recordou os presos políticos da ditadura, os relatos de tortura da PIDE em Moçambique e a necessidade de reconhecer o colonialismo como violência. Foi pedagógico, analítico, sustentado em memória histórica.
• André Ventura apostou na forma: slogans fáceis, ataques pessoais, simplificações populistas. Dominou o palco mediático, mas não o campo das ideias.
Quem procura conteúdo percebe que Pacheco não perdeu. Manteve a dignidade da pedagogia e da verdade histórica. O que aconteceu foi que, no espaço televisivo, Ventura ganhou em espetáculo porque o ruído é mais fácil de consumir do que a substância.
O episódio lembra-nos que a política pode ser feita de responsabilidade, como Jorge Coelho mostrou ao demitir-se em 2001, ou de espetáculo, como Ventura insiste em provar. A escolha entre pedagogia e populismo é, afinal, a escolha entre memória e esquecimento, entre responsabilidade e decadência.
