Opinião
Os rostos da paz e a paz dos rostos
Antes de tudo, um aplauso caloroso aos ilustres “Rostos da Paz” da Huíla. Que privilégio o nosso viver numa província onde a paz, essa entidade quase metafísica, finalmente ganhou fotografia ampliada, painel estruturado e iluminação urbana na Avenida Dr. António Agostinho Neto. Cento e vinte rostos. Cento e vinte histórias. Cento e vinte provas visuais de que a paz, afinal, tem moldura, impressão digital e talvez até autorização administrativa.
Parabéns aos escolhidos. Entre milhões de angolanos resilientes, alguém teve a sublime tarefa de seleccionar os mais fotogénicos representantes da tranquilidade nacional. Uma missão quase espiritual, imagina-se.
Mas, já agora, permitam-nos um pequeno exercício de memória colectiva.
O que significam, afinal, para o povo angolano, as datas de 4 de Fevereiro, 11 de Novembro e 4 de Abril?
O 4 de Fevereiro de 1961 marca o início da luta armada de libertação nacional, símbolo do sacrifício anónimo de homens e mulheres que tombaram sem saber que um dia seriam substituídos por painéis decorativos.
O 11 de Novembro de 1975 consagra a Independência Nacional, proclamada por Agostinho Neto, num momento em que a soberania se afirmava acima de rostos individuais.
O 4 de Abril de 2002 representa o fim de um conflito fratricida, formalizado com o Memorando de Entendimento do Luena, data que simboliza reconciliação nacional e não selecção nominal.
Estas datas não pertencem a 120 cidadãos. Pertencem a um povo inteiro. São marcos estruturantes da nossa identidade colectiva. São datas em que a memória institucional sempre privilegiou o Soldado Desconhecido, o Combatente Anónimo, o Cidadão Comum. Porque a grandeza da nação sempre residiu na colectividade e não na personalização selectiva.
E aqui começa a parte menos festiva.
Quando o Estado angolano decidiu estabelecer critérios rigorosos para homenagens no contexto dos 50 anos da Independência, foi necessária legislação específica para regulamentar quem, como e porquê se homenageia. Houve normas. Houve critérios. Houve enquadramento jurídico. Porque homenagear, em matéria de Estado, não é exercício emocional; é acto institucional.
Assim, a pergunta que não se quer calar é simples, mas incómoda:
Quais foram os critérios objectivos utilizados pelo Governo Provincial da Huíla para seleccionar os “Rostos da Paz”?
Houve comissão técnica?
Houve regulamento público?
Houve critérios de mérito histórico mensurável?
Houve consulta pública?
Ou bastou notoriedade social e reconhecimento circunstancial?
Se os 50 anos da Independência exigem lei para definir critérios de homenagem, por que razão, numa data igualmente estruturante como o 4 de Abril, se podem consagrar simbolicamente representantes do povo sem transparência normativa conhecida?
Ou será que estamos diante de uma nova fase da política comemorativa: a era da paz personalizada?
Mais ainda: se agora a paz tem rosto conhecido, significa que o modelo simbólico do Soldado ou do Cidadão Desconhecido já não procede? A homenagem deixou de ser colectiva para se tornar selectiva? A reconciliação nacional passou a ter elenco?
Não se trata de negar o mérito dos cidadãos homenageados. Certamente todos têm trajectórias dignas. O ponto é outro: quando o Estado homenageia, não o faz em nome de preferências. Fá-lo em nome da República. E a República rege-se por protocolos.
A paz não é um clube privado. Não é um painel urbano. Não é um exercício estético. A paz é um património colectivo, construído por rostos conhecidos e, sobretudo, por milhares de rostos anónimos que nunca pisaram uma avenida iluminada.
Se a moda das homenagens continuar sem rigor protocolar, corremos o risco de transformar datas sagradas da nação em passarelas simbólicas. E quando tudo se transforma em homenagem, nada mais é verdadeiramente solene.
Talvez o próximo passo seja criar um concurso público anual: “Angola’s Got Peace”. Júri técnico, votação popular e, quem sabe, transmissão televisiva em horário nobre.
Porque, afinal, a paz também precisa de palco.
Ou será que precisa apenas de respeito institucional?
