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Os rapazes da Bina – Cronica de Edson Kassanga 

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A preocupação e a saudade são os sentimentos com quais minha alma se deixa contagiar quando reparo, atentamente, nas actividades que os adolescentes de hoje praticam nos tempos livres, ou quiçá, a tempo inteiro.

Vejo crescer, de modo alarmente, a duração do tempo que os adolescentes dedicam à prática de actividades nocivas ao seu  desenvolvimento físico e mental, nomeadamente a audição de músicas despidas de mensagens edificantes; o consumo demasiado de bebidas alcoólicas; as relações sexuais precoces e  desprotegidas; o uso de diversos tipos de drogas, entre outras, comprometendo, sobremaneira, a materialização de um porvir profícuo para o país, uma vez que, além de ser tida como a franja da sociedade da qual depende o futuro do amanhã, a sua expressão em números é muito expressiva de acordo dados estatisticos da população angolana.

Por conseguinte, esta triste constatação arrasta minha mente à época e o local em que eu era adolescente: derradeira década dos anos 90, bairro Santo António (cidade do Lubango). Naquele saudoso tempo e espaço, os concursos de beleza (Miss Santo António), nos quais os play-backs das músicas dos grupos SSP e N’Sex Love faziam furor, congregavam o maior número de adolescentes de ambos os sexos. Entretanto, o mesmo não se verificava em eventos que envolviam talento no manuseamento da bina.

Bina- uma garota esbelta, muito estreita e mais conhecida por bicicleta- era, quase exclusivamente, utilizada e apreciada por adolescentes do sexo masculino nas caminhadas e nos concursos de equilíbrio como pedalar com o pnueu dianteiro no ar, manter a bina em pé sem pedalar, etc. Apesar de as adolescentes serem indiferentes a estes eventos, muitas delas baixavam a guarda perante o galanteio de algum adolescente que se fizesse transportar por um bina bem artilhada (adornada com acessórios).

Efectivamente, vivia-se uma efevescência em acções com recurso a este simples, saudável bem como ecológico meio de transporte. Com ele fazíamos à estrada da cidade do Lubango para outras localidades tal e qual à Lagoa da Tundavala, à Serra da Leba, à Arimba, entre outras. Os encantos naturais captados pelos nossos olhos de brancura pouco pura durante estas viagens e o efeito apaziguador da brisa de intensa morabeza acariciando a nossa face impediam com que a fadiga proveniente das reiteradas e pesadas pedaladas fosse suficiente para fazer-nos desistir do plano previamente estabelecido. Era um risco pelo qual valia pena correr e constituia um dos fundamentais factores de integração de uma porcão considerável dos adolescentes residentes na cidade do Lubango.

Na Minhota, bairro onde a pastelaria Paris possuia o posto de cartão de visita, destacava-se o Russo. Um albino de altura média, delgado e dono de uma linguagem gestual mais próxima a de um louco tornava cada peça da bina com que andava numa extensão dos membros do seu corpo, a julgar pelo brio com que exibia acrobacias. Ademais, ao contrário de tantos como eu, que levávamos meses ou anos para montar e artilhar nossas binas, ele tinha variegadas binas e bem artilhadas, sendo quase todas as peças das mesmas da marca Shimano. Com tal aquisições só podia filho de um ” caga milhões”. 

Já no bairro Santo António-composto por uma população miscegenada devido a mescla do povo, tipicamente, angolano com povos de outras latitudes feito o cubano, cabo-verdiano e, sobretudo, o povo português- o Selder, alguém com quem desenhei gravuras impossíveis de serem apagadas, era quem dava nas vistas. Além de ter nádegas empinadas, era vaidoso e deixava pessoas de boca aberta quando colocava os pés no pedal, exibindo acrobacias que desafiavam os limites das capacidades humanas. Era estupendo fazendo coisas que até hoje não compreendo. 

Por isso, era o mais conhecido no bairro quanto ao assunto bina, também por conta dos privilegiados contactos que tinha com os amantes da bina residentes noutros bairros e por ser, naquela altura, um dos melhores mecânicos do igualmente chamado cavalo magro com quem contávamos a par do “Vargas”, meu primo que iniciou-se no mundo do business muito cedo.

Assim, creio ter sido graças a estas actividades, e não só, que adiamos, por inumeros anos, o nosso casamento com a consumo de bebidas alcoólicas; foi por conta delas que conseguimos evitar com que o desejo de ter mais nunca nos confinasse atrás das grades; foi por elas que, até hoje, vislumbramos as drogas feito um mundo desconhecido; foi através delas que ganhamos sensibilidade pelas coisas singelas assim como intensas que a vida dá de mão beijada, solidificando nossa inteligência emocional.

Infelizmente, esta ditosa realidade de outrora não se encontra com o dia a dia dos adolescentes da presente época. Pelo que, urge a necessidade de inculcarmos neles a paixão pelo ciclismo e demais actividades benéficas  com vista a abrandar e, posteriormente, banir a vertiginosa velocidade com que os mesmos movimentam-se rumo ao abismo. É nosso dever, é nossa obrigação!

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