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Crónica ideal ao Domingo

‘O Segredo Dos Seus Olhos’: Um Óscar libertador de S. Valentim

Por: Jundala

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As primeiras imagens ilustram a comovente despedida dum casal em uma estação ferroviária. O comboio parte num vagar fugaz aos poucos e poucos. A mulher bem apessoada segue-o como se somente nesse preciso instante conseguisse fôlego para parlar palavras tenras e puras a quem já ia a bordo da locomotiva -alguém do sexo masculino que a ela dirige seus olhos convicto de estar a arrancar um grosso pedaço de seu coração.

Ela corre aflita atrás do comboio com os olhos tornados nascentes de ribeiros permanentes. Ainda assim esse meio de transporte não cede a respectiva velocidade. Avança, avança, avança cada vez mais veloz. Ao mesmo tempo, o passageiro palmilha o chão às pressas, manifestando avidez mesclada com desespero por via da face, até ao último vagão na intenção de escutar expressões prestes a serem ditas. É tudo que ele aspira agora. Parece que tudo que a também mulher culta mais deseja é falar. Contudo, tudo que realmente acontecerá, não passará de uma silenciosa conversa entre os olhos de ambos através das janelas do meio de transporte que se desloca sobre os carris, antes desse naufragar no horizonte.

É a partir da cena acima que Juan José Campanella propõe aos amantes do cinema múltiplas reflexões ao redor do amor no seu filme intitulado ‘O Segredo Dos Seus Olhos’, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro na edição de 2010, dando enfoque na duração do amor, na (in)existência de algum limite pelo que se faz por amor e na existência ou não de algo que elimina de todo esse sentimento.

Tal filme, baseado no romance de Eduardo Sacheri com título original “La Pregunta De Sus Ojos”, deixa obviamente à mostra indícios que o aproximam mais a um romance, sopesando-o em relação a outros géneros cinematográficos, apesar de a ocorrência de um crime ser o ponto no qual se conectam as diversas personagens.

Aos 23 anos de idade uma casada a fresco é violada antes de ser assassinada de maneira sobremaneira bárbara. Benjamín Spozito, funcionário do tribunal de Buenos Aires, é indicado para a investigar o caso. Em estreito espaço de tempo, ele consegue pôr o autor do crime atrás das grades, contando com a ajuda de seu colega e de sua superior hierárquica, Irene Hastings. Porém, muito antes do criminoso responder em tribunal, é posto em liberdade por via de diligências pouco transparentes e sai da cadeia sedento de vingança por quem o havia prendido, obrigando Benjamín a se retirar da capital argentina a bordo de um comboio.

Volvidos mais de vinte anos, o funcionário do tribunal decide buscar as memórias do passado a fim de escrever um romance sobre o caso mal resolvido, proventura ainda por resolver, num tom autobiográfico. À medida que vai escrevendo, procura contactar pessoas à volta das quais aborda no livro, também em consideração a intensa influência que as mesmas tiveram na vida dele. Uma das tais é o esposo da jovem trucidada, bancário de profissão, devido ao seu modo extraordinário de resistir àquilo que tanta gente encara como o exterminador implacável, o exterminador irresistível do amor. Outra é a mulher de quem se despediu na estação do caminho de ferro: Irene Hastings. A mesma que, além de ter sido sua chefe, amou-a desde o primeiro dia que lhe viu.

Duas histórias de amor perpétuo em uma, amor que se instala logo no primeiro olhar, suspeito que atraí a atenção dada a sua forma de olhar e que se revela culpado igualmente pelo jeito de olhar. Talvez essas sejam as frases que melhor sintetizam o filme cujas questões chaves são respondidas por intermédio do olhar: ‘O Segredo Dos Seus Olhos’.

Feliz dia dos namorados prestimoso(a) leitor(a).

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