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Opinião

O poder da escuta “empática”

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Por: Juélcio Santos

Existem vários modos de ouvir. Um é ouvir meramente fisiológico (ouvir alguém). O outro representa uma postura mais atenta e sintonizada com o falante – é um acto de escuta psicológica e empática (ouvir com alguém), podendo mesmo ocorrer quando a pessoa não é fisicamente capaz de ouvir, só para concordar neste aparte com Cloke e Goldsmith ao relacionarem o ouvir simpático com a escuta empática.

O cínico ouve porque receia que as suas palavras sejam um trunfo para o adversário. O ofensivo ouve mas tentando encontrar algum erro ou contradição no seu parceiro de comunicação. O cortês ouve agindo mecanicamente, prestando pouca atenção ao que é dito, só para criar boas impressões de cortesia. O compreensivo ouve porque deseja aprender. O dicótico ouve mas presta atenção a outras coisas ou situações. O humorado ouve para partilhar experiências e obter lazer e divertimento. O selectivo só ouve o que quer (lhe agrada) ouvir. O directivo «guia» o falante limitando e direccionando a comunicação ( «eu no teu lugar, não iria por aí») . Já o investigativo coloca inúmeras questões para chegar ao cerne da questão. O passivo actua como um gravador, mas de modo pouco apurado. O activo ou empático escuta e envolve-se de forma de forma sincera e empática com a pessoa que está a falar. Escuta os sentimentos, as emoções e os significados que não estão inscritas na ipsis verbis, nas palavras proferidas por quem fala.

Escutar activa e empaticamente significa compreender a comunicação do ponto de vista do falante. Implica concentrar-se nas palavras do interlocutor e tentar compreender o seu significado. Exige esforço tanto para falar como para ser compreendido.

Para ser activo ou empático na escuta é preciso, a meu ver: Perceber ou discernir, processar ou avaliar para poder responder ou explicar.  Deste modo, o falante pode assegurar-se que as suas mensagens estão a ser compreendidas pelo ouvinte, e pode sentir-se impelido a prosseguir com as suas acções comunicacionais.

Talvez o meu estudante (citado no artigo anterior) não leia o que escrevo aqui, mas o meu silêncio naquele momento podia significar muitas coisas: falta de tempo da minha parte, desinteresse mas também pouca aptidão para falar do assunto, o que para estudantes é um sinal mais. Pois a ideia tradicionalista de que os «professores sabem tudo», cai por terra e amplia a vontade dele em pesquisar e trazer mais «perguntas interessantes e reflexivas» como a do ponto de partida do nosso texto.

Talvez eu quisesse que fosse ele a obter a resposta – já que não lha dei – por meio da busca e de perguntas a si mesmo. Ou, quem sabe, era minha intenção valorizar a fala dele escutando-o atentamente, sem ter de dizer muitas palavras que abafassem as suas?

Quem «escuta» cria laços emocionais fortes, salva relações e torna-se mais amável do que é. É a razão fulcral para gostarmos tanto que nos ouçam com atenção e percebam o que dizemos. Praticar o silêncio enquanto alguém nos fala, é hoje, uma das mais fortes demonstrações de amor. Porém, como dissemos, é preciso saber escutar sem ouvidos, ir além do que o outro não nos fala pela fricção dos lábios e harmonia da língua entre o palato e os dentes. É necessário «ler» o silêncio do nosso interlocutor tal como o desenvolvimento da vida no útero (sem palavras), o amor à primeira vista (sem palavras), a solidariedade espontânea (sem palavras), despedida de um ente querido, cujo silêncio profundo nos faz perceber duas coisas: descanso e paz, mas também que não volta mais (também sem palavras).

Das várias acções que podem salvar a nossa comunidade, o país, o continente e o mundo, praticar escuta activa e empática é uma delas. É, no entanto, preciso algum cuidado com aquilo que transmitimos com o silêncio em demasia ou, o mais perigoso, com a falta dele, a depender do contexto. Pois é pelo silêncio que a natureza nos dá paz, e é por ele também que os mortos nos fazem chorar e os cemitérios nos dão medo.

Por isso, caro estudante, reitero: «palavra é prata e silêncio é ouro». Isto é, falar («tomar a palavra») no momento certo é «bom», mas manter-se calado e na escuta activa, ou saber se conter em determinadas ocasiões, é «boníssimo».

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