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Opinião

O lugar da mulher angolana na historiografia nacional

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Por: Bernardo Simões Donga

A historiografia de Angola sobre a luta de libertação nacional embora não seja uma história factual, mas sim uma história problemática, ela em particular apresenta singularidade quanto às suas abordagens, nomeadamente sobre o sujeito da história. As obras científicas de referência no quadro das suas abordagens dão maior ênfase aos homens enquanto sujeito da história, nomeadamente os líderes ou os presidentes dos movimentos de libertação, líderes militares, membros dos órgãos de direcção, sem no entanto, conferir lugar de destaque à mulher.

Por hoje, tem sido preocupante para a comunidade académica a abordagem sobre o género nos mais variados campos do saber, servindo também para nós uma certa preocupação. Sendo assim, é importante a abordagem sobre a participação das mulheres na luta de libertação de Angola . Dizer que, a discussão sobre esta temática, serve também para dar a conhecer a sociedade as diversas formas com que a mulher se destacou na luta de libertação, o seu papel e o fomento sobre a igualdade do género no contexto actual.

A representação da mulher nas obras de actores de referência divergem nalguns aspectos enquanto uns apresentam a mulher como símbolo para rituais outros as representam como vítima de guerra, porém, o ponto comum está na representação ou descrição da mulher enquanto sujeito passivo da história.

Durante a luta colonial, constatamos que haviam mulheres não politizadas como camponesas e comerciantes que informavam sobre a actuação do colono contra os nacionalistas e ajudavam com a alimentação os guerrilheiros e outras instruídas que a partir  de associações culturais como ANANGOLA e Santa Cecília, desempenharam  papel de activismo social e político. Com o eclodir do inicio da luta armada à 4 de Fevereiro de 1961, a situação politica e social para os angolanos tornou-se deplorável devido a actuação da PIDE, o que obrigou estas mulheres rumarem para o Congo Leopoldville e posteriormente para o Congo Brazzaville, ingressando para organizações socio-políticas como CVAAR onde  nacionalistas  como Jovita Nunes e Eugenia Van-Dúnem  deram seu contributo no cuidado dos refugiados angolanos; a partir da OMA, onde desempenharam vários papéis como enfermeiras, mobilizadoras de massas e propagandistas no quadro de apoios aos Movimento de Libertação para luta contra o regime colonial. Vale dizer que algumas destacaram-se como professora no Centro de Instrução Revolucionãrio em Dolisie por volta de 1965, ajudando na formação intelectual e ideológica de pioneiros e jovens do MPLA, a existencia dos CIM e dos CIR, permitiu também a formação militar das mesmas e sua participação directa na guerra como soldado, aqui podemos destacar nacionalistas como Deolinda Rodrigues, Irene Cohen de Brito Teixeira,  Lucrécia Paim, Teresa Afonso Gomes,  Engrácia dos Santos que fizeram parte na formação de quadros militares no  Esquadrão Camy.

Por outro nacionalistas como Cipriana Kawawa ao serviço da FNLA desempenhou papel de Locutora no Programa radiofónico Voz de Angola Livre por volta de 1967 para a mobilização do povo angolano. Finalmente por volta de 1970 e 1973 outros nomes sonantes como Tita Malaquias, Idalina Kaiuna, Stella Makunga deram valioso contributo nas actividades de clandestinidade e na formação ideológica da União Nacional para a Independência Total de Angola.

Portanto esta abordagem histórica permite compreender o quanto as mulheres angolanas estiveram lado a lado ao homem a dar o seu contributo, enfrentando preconceitos e descriminação do sexo, numa época em que elas foram relegadas para o segundo plano em muitas das actividades.

*Texto de Bernardo Simões Donga, licenciado em Pesquisa e Ensino de História pelo ISCED de Luanda, licenciando em Relações Internacionais pelo ISRI ( Ministro Venâncio de Moura).