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Opinião

O legado de Savimbi e, os desafios da UNITA.

Olivio N'kilumbo

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A UNITA é um partido conservador, enraizado e com fortes valores endógenos. Nestas condições fica muito difícil fazer grandes manobras que visam reformar e dar um rumo diferente, ou seja, o rumo que os dias que correm exigem. Observo com atenção e me preocupa ouvir pessoas dizer a “UNITA precisa olhar para a frente”. Que significado tem este olhar para frente? Significa piscar para além dos valores que a conformam como agremiação política conservadora, reconquistar aqueles que um dia acreditaram na força da UNITA, significa ainda conviver com um eleitorado novo mais exigente e com menos ligação ao passado. Ou seja, a UNITA precisa de nova estratégia cirúrgica de luta. O funeral de Dr. Savimbi fecha um ciclo com o passado e, abre automaticamente outras duas grandes frentes que, em teoria dependem exclusivamente do partido e da visão holística do “novo” líder: Primeiro será gerir as pressões internas fruto do passivo e excessos do passado (execuções e assassinatos) e ser poder para sobreviver.

O Legado

O primeiro legado de Dr. Savimbi é mesmo o projecto UNITA, uma agremiação de peso político nacional, africano e mundial e com uma base de apoio fortemente assente em valores endógenos. Segundo maior partido, um verdadeiro aspirante ao poder, ou seja, um factor da alternância em Angola. A democracia como  poder do povo, é também percebida como o resultado do exercício contínuo das várias disciplinas. É pois uma grande conquista dos povos de Angola, fruto do empenho de todos, embora, uns se tenham destacado mais do que os outros. Porém a história da humanidade é marcada pelo esforço e coragem dos mais fortes em defesa do interesse da maioria, teoricamente mais fraca. É legítimo que a paternidade e instituição da democracia em Angola recaia para Dr. Savimbi uma vez que, foi visionário em perceber que os tempos caminhavam acelerados para uma mudança global de paradigma e, portanto, nas negociações para a paz introduziu a democracia como forma de governo discordando assim, com a solução africana apresentada pelo MPLA, sem esquecer que o seu líder uma vez disse “a democracia nos foi imposta e que, a mesma não enche a barriga de ninguém”. Não menos importante realçar o facto de os EUA grande apoiante da UNITA de então, ser dos mais antigos praticantes e defensores da democracia desde finais dos tempos modernos e início da época contemporânea, foi um dos factores que “empurrou” Savimbi aestabelecer uma relação com a democracia. Deste modo, a “democracia como bem político mais precioso dos nossos tempos”, é sobretudo uma conquista do povo angolano.

Desafios

Resolver assuntos internos fruto dos actos criminosos ocorridos durante o conflito, pelos excessos do Dr., Savimbi e não só, são os passivos que se apresentam como um momento de elevada complexidade e, exigirá das lideranças muita mestria, uma vez que marcaram a UNITA como sanguinária, rótulo que a macula e ao mesmo tempo se transforma num peso tremendo e abala o grande propósito, o de ser poder nos próximo dez anos. Houveram duas grandes oportunidades que podiam fazer da UNITA poder sendo estas em 1992 e 2017.

Desde as primeiras eleições em Angola, já lá vão mais de 25 anos e, de lá para cá as vitórias pertencem só ao “glorioso”. A UNITA vem averbando derrotas atrás de derrotas eleitorais. Os partidos não surgem para ficar eternamente na oposição, embora, no nosso xadrez político, existem partidos com poucas hipóteses de serem poder por variadas razões o que, não é o caso da UNITA. Os números não mentem, uma derrota de Dr. Savimbi e três para Samakuva, dados que devem levar a reflexão sobre o futuro e desafios do maior partido na oposição e maior adversário do MPLA “dono do poder em Angola”.

Em competição política o poder não tem dono, a alternância política é o corolário da democracia e, sem a qual estamos longe da consolidação política. Adriano Sapinalã, jovem político da nova elite da UNITA, dissera no programa revista Zimbo da televisão com o mesmo nome, afirmando que a disputa política em Angola é espaço apenas para dois partidos no caso UNITA e MPLA isso em resposta a notícia segundo a qual Chivukuvuku (antigo presidente da CASA-CE) irá criar o seu novo partido. Ao ouvir o ilustre deputado Sapinalã, fiquei com a sensação de que num futuro não muito distante teremos uma bipolarização partidária. Esta teoria é muito perigosa para o nosso latente processo democrático onde, os partidos políticos se apresentam como o princípio e o fim da vida política, a ponto de traduzir o exercício de elegibilidade apenas aos partidos, deixando sem qualquer hipótese os candidatos independentes a Presidente da República, diminuindo significativamente a participação política do cidadão na polis. Alguém um dia disse que “quando o MPLA está unido o país perde”, imagina unido com a UNITA, ali o país morre… Pelos discursos, me parece que os camaradas e os maninhos estão muito próximos no pensamento da bipolarização partidária (tal como nos EUA). A primeira vez que ouvi tal coisa, foi de um destacado político do partido no poder e, depois de um Amigo meu. Voltando aos desafios do Galo Negro, têm os próximo dez anos para ser poder em Angola. É muito difícil, mas é possível. Nunca foi tão possível quanto agora excepto em 1992, em que Savimbi tinha tudo, mas não teve a frieza que se exige num momento eleitoral. Jaime Nogueira Pinto na sua célebre obra “Jogos Africanos” relata num depoimento do general Geraldo Sachipengo Nunda (antigo Chefe Estado maior das FAA) que, “os americanos apesar da confusão e do relativo desencanto, ainda mantinham um apoio significativo a UNITA. Sendo 150 milhões de USD foi o montante disponibilizado para a campanha eleitoral de 1992, sem esquecer que no porto do Lobito estavam por se descarregar muito material para a campanha eleitoral– meios de propaganda de difusão e rádios. Embora houvesse a diabolização da UNITA por causa dos assassinatos e das dissidências na mesma, os angolanos com realce para os de Luanda, estavam fartos dos corruptos, burocratas, da má gestão, do desgoverno, da violência e da perseguição do MPLA. Este clima era favorável a UNITA, mas Dr., Savimbi não cumpriu com elementos básicos de uma campanha tais como: Plano de campanha descentralizar a gestão da mesma, dar protagonismo a outros actores do seu partido. O rótulo de kwachas e assassinos falou mais alto do que o de Camaradas ladrões.” O desfecho do processo ficou para a história onde os camaradas continuaram corruptos como sempre, achando-se donos do poder e os manos acham que ainda têm o poder dos anos 80 e 90.

O país teve um excelente crescimento económico, mais do que suficiente para proporcionar aos angolanos o melhor que se pode desejar para um povo que tanto sofreu e merecia viver em paz. Infelizmente, o MPLA não teve vontade nem competências para transformar Angola num bom lugar para se viver. Vivemos uma profunda crise económica sem fim a vista, as populações estão mergulhadas na pobreza extrema fruto de falhas ou inexistência de políticas públicas sérias… Enfim, o MPLA tem o país num elevado estado de desarrumação e descontrolo total. Estes seriam sem dúvidas os principais adversários do MPLA e o levariam a consumar a sua primeira derrota sobretudo por má governação. Portanto, o país não avançou, o bem comum não foi conquistado e mais uma vez foi adiado o futuro dos angolanos. Desta feita, não havia condições para uma vitória eleitoral do MPLA, por não ter conseguido concretizar politicamente (por via da boa governação) logo não realizou a vida do cidadão (resolvendo os seus problemas básicos). Este é o binómio que proporciona as vitórias e, sem o qual, não se soma nas urnas e no caso do MPLA, nem mesmo com Barack Obama na pele de cabeça de lista seria possível. Então, como explicar o comportamento do eleitor que tem a pobreza entranhada em duas gerações da sua linhagem familiar e sem fim a vista para a mesma, mas ainda assim prefere manter o voto de confiança no mesmo governo que se mostra incapaz de diminuir a pobreza? Será que os angolanos efectuam somente um voto emocional? Precisámos da ajuda da neurociência. As respostas destas perguntas alimentam as desconfianças da existência da “máquina da batota” e de um chefe que comanda a batota, só por isso é que o “glorioso” teve “glória” principalmente adora em 2017. A UNITA sabe da existência de uma máquina eleitoral fraudulenta, reclama de fraude pós eleitoral e, participa no mesmo processo viciado a partida. Caros Maninhos, a paciência dos eleitores já não será a mesma a começar em 2022.

As novas dinâmicas eleitorais serão extremamente exigentes, o que poderá pôr a UNITA por um fio caso não consiga ser poder, e poderá dar lugar ao risco de descrença no partido e poderá ainda dar lugar a III onda de dissidências. Os próximos 10 anos serão decisivos, uma questão de sobrevivência fruto das pressões vindas dos dois lados (interna e externa), os insucessos eleitorais vão começar a pesar, associada a agravada degradação da vida das populações no interior do país, irão pôr em risco a confiança e a simpatia vindas das zonas em que o partido tem influência, afectando mesmo a esperança (deles) em ver o seu voto valorizado com o seu partido no poder. Os tempos clamam por outros interlocutores, refiro-me a pessoas com outro espírito de luta política para a conquista do poder, capazes de usar todas as armas legalmente consagradas no confronto em democracia. Outra dupla para o choque político, mais corajosa e assertiva na interpretação, capaz de capitalizar com os erros do oponente que se apresenta fragilizado (com laivos de bifurcação), prontos a correr todos os riscos possíveis e próprios da política bem como uma dupla capaz de jogar na grande área do adversário (usar os medos do adversário, retirar-lhe da linha de conforto e propor pacto de Estado), Portanto, novos e / velhos rostos na UNITA precisam-se. Numa ou Gato?

 

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