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O grande dilema da UNITA: consolidar ou arriscar tudo

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A UNITA vive, neste momento, um dos períodos mais decisivos da sua história recente. Pela primeira vez desde o advento do multipartidarismo, alcançou 90 deputados, um marco que reconfigura o sistema político angolano e coloca o partido num patamar de competitividade nunca antes visto. Este crescimento, como diria Giovanni Sartori, obriga o partido a “maximizar o seu comportamento estratégico dentro das regras do jogo competitivo”, pois quando uma força política altera o seu peso parlamentar, altera igualmente as expectativas e responsabilidades que a sociedade projeta sobre ela.

Contudo, este avanço coincide com um congresso interno decisivo, onde se confrontam duas visões de liderança:
Adalberto Costa Júnior, o presidente cessante, que conduziu o partido ao melhor resultado da sua história;
Rafael Massanga Savimbi, aspirante que simboliza a renovação, a continuidade histórica e a possibilidade de reposicionar a narrativa política.

A grande questão estratégica que se impõe é simples, mas carregada de implicações profundas para o futuro do partido e da própria democracia angolana:
Qual estratégia melhor se ajusta ao cenário político actual?

1. O risco de perder os resultados alcançados com a eleição de um novo presidente

A literatura de estratégia eleitoral enfatiza que mudanças abruptas na liderança podem gerar perda de identidade, ruptura na mensagem e desconfiança no eleitorado. Angus Campbell e a Escola de Michigan demonstram que o eleitor médio tende a valorizar consistência e previsibilidade. Qualquer alteração brusca pode desmobilizar bases, reduzir confiança e enfraquecer a marca partidária.

No caso da UNITA, que cresceu fortemente sob a liderança de Adalberto Costa Júnior, substituir o líder pode gerar:

Percepção de instabilidade interna.
Ruptura com a estratégia que garantiu o avanço de 2017 para 2022.
Fragmentação entre as bases urbanas, jovens e de classe média que acolheram a sua proposta de mudança.
Perigo de recuo eleitoral, como argumenta Peter Mair, que alerta que partidos em ascensão que mudam de líder demasiado cedo podem “perder o timing da consolidação”.

Assim, há risco real de a UNITA descapitalizar os ganhos obtidos se a mudança for interpretada como retrocesso ou descontinuidade.

2. A manutenção do mesmo presidente para fidelização ou optimização dos resultados

Do ponto de vista da estratégia eleitoral, a continuidade é frequentemente um activo. Philip Kotler, ao adaptar conceitos de marketing ao campo político, reforça que a fidelização do eleitor depende da estabilidade da marca e da confiança construída ao longo do tempo.

Ao manter Adalberto Costa Júnior, a UNITA:

Reforça a imagem de consistência estratégica.
Mantém o alinhamento do discurso nacional e internacional.
Capitaliza a confiança já adquirida nas últimas eleições.
Mantém a máquina partidária coesa num momento de forte expectativa social.

Segundo Jesper Strömbäck, a política moderna é cada vez mais centrada na imagem do líder. Mudá-lo sem narrativa sólida pode ser politicamente dispendioso. A manutenção pode, portanto, ser vista como estratégia de consolidação.

3. A terceira via: Manter os resultados actuais e preparar a transição política para vencer o MPLA

A teoria política contemporânea ensina que partidos fortes precisam conjugar duas dimensões:
Estabilidade interna, que se traduz na coerência organizacional;
Inovação estratégica, que permite captar novos eleitorados.

Karl Deutsch defende que sistemas políticos eficazes são aqueles capazes de aprender, adaptar-se e manter a coesão. A UNITA pode optar pela estratégia híbrida: manter os ganhos e preparar a transição sem abalar a unidade interna.

Esta abordagem combina:

a) Continuidade estratégica até 2027

Manter o presidente que garantiu 90 deputados assegura coerência e previsibilidade.

b) Construção de uma narrativa de transição organizada

Rafael Massanga Savimbi pode ser valorizado como expressão de renovação, continuidade histórica e garantia de que a UNITA tem liderança para além da figura actualmente no comando.

c) Preparação para enfrentar um MPLA com bicefalia

O MPLA, por regra estatutária, terá um novo candidato presidencial. Maurice Duverger explica que partidos em transição de liderança podem sofrer desgaste interno. Isto abre oportunidades para a UNITA, desde que mantenha coesão.

A UNITA precisa enfrentar dois discursos concorrentes:

O discurso partidário do MPLA, renovado, tentando distanciar-se do desgaste governativo.
O discurso do Presidente da República, que apesar de “não” ser candidato, terá enorme influência.

Para derrotar estes dois níveis de poder, a UNITA necessitará de:

Mensagem clara e unitária.
Equipa de liderança pública coesa.
Forte capital moral e organizacional.
Narrativa de esperança e profissionalização da governação.

Como diria António Gramsci, o partido precisa construir uma hegemonia ética e política, onde a mudança não é apenas promessa, mas projecto credível.

4. Conclusão: Qual estratégia é a mais inteligente?

À luz da análise estratégica, da teoria política e da conjuntura nacional, a estratégia mais racional para a UNITA é a Estratégia da Unidade Incremental:

Manter Adalberto Costa Júnior até 2027, consolidando o crescimento obtido.
Integrar Rafael Massanga Savimbi numa lógica de transição estratégica, reforçando o discurso de renovação e alargamento das bases.
Preparar o partido para derrotar um MPLA em bicefalia, unindo a estratégia eleitoral ao projecto de governação.

Assim, a UNITA não perde os resultados alcançados, mantém a coesão, fortalece a identidade e prepara-se com inteligência para a disputa maior, que é a alternância do poder político em Angola.

A política, como ensina Sun Tzu, é a arte de vencer antes de entrar na batalha.
E a UNITA, neste momento, tem todas as peças para o fazer, desde que não se divida.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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