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“O ensino em Angola precisa ser mais inclusivo e adaptável à realidade mundial”

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Enquanto o Governo debate-se sobre a regulamentação e criação de ferramentas que possibilitem o ensino à distância em Angola, a sociedade civil avança com propostas promissoras que podem por um termo ao “caos” na educação, agravado pela pandemia de covid-19.

Aprovado internacionalmente e utilizado em grande escala por diversos países, em Angola, o ensino à distância ainda é um recém-nascido (prematuro)”, conclui em entrevista exclusiva ao Correio da Kianda, o engenheiro de petróleo e logística, Alisson Miguel.

Para o mentor da plataforma de Ead, Nova Educação, “o futuro chegou no presente, sendo assim, não podemos permanecer no passado”.

“Só será possível usufruirmos dos benefícios vários do ensino à distância e semi-presencial em Angola, a partir de 2021, se começarmos a dar os primeiros passos em 2020”, alerta.

Leia a entrevista abaixo

Recentemente realizaram um webinar sobre o “Ensino à distância em Angola”. Comparado com outros países, como Angola está actualmente em relação a este método de ensino?

Exactamente. Foi no passado dia 06 do corrente mês, em que realizamos este webinar, justamente, para abordar este tema com o Ministério da Educação, ANEP (Associação Nacional do Ensino Privado), AIESPA (Associação de Instituições do Ensino Superior Privado Angolano), instituições privadas do ensino primário, secundário e superior (Colégio Elizângela Filomena e Universidade Gregório Semedo) e um especialista em tecnologias educacionais (Brasil). Certamente, a semelhança de outras áreas, o ensino à distância e semipresencial ou “e-learning” em Angola, ainda não é uma realidade.

Pode exemplificar?

Países como Estados Unidos da América, onde o Ead já co-existe com o presencial, denominando-se sistema híbrido, este modelo já está amplamente massificado há mais de 20 anos. À título de exemplo, no Brasil, em 2018, o número de matrículas no modelo Ead superou o modelo presencial, com índices de 52% e 48%, respectivamente. Entretanto, mesmo no Brasil, nem toda população tem ou pode ter acesso à este modelo; onde os pressupostos para a sua implementação passam pela distribuição regular de energia eléctrica, acesso à internet e dispositivos tecnológicos (computador, tablet ou smartphone). Todavia, deve-se perceber que há a necessidade de começarmos de alguma forma e irmos evoluindo, paulatinamente, tem sido assim com o acesso à energia eléctrica, água potável, saneamento básico e, inclusivamente, com o ensino presencial. Ainda não temos uma cobertura à nível nacional, apesar dos esforços no decorrer de todos estes anos.

Qual seria o maior entrave para implementação do ensino à distância em Angola?

O principal tema, neste momento, para que o Ead possa ser implementado e posteriormente disseminado, tem a ver com a sua regulamentação e homologação para o ensino de base (primário e secundário). Uma vez que o ensino superior já tem este tema arrumado, conforme o Decreto Presidencial no 59/20 de 3 de Março. Pese embora, nem este subsistema de ensino demonstrou avanços significativos, desde a sua regulamentação. Concluindo, o ensino à distância em Angola é um recém-nascido (prematuro).

O ensino à distância tem sido tendência mundial, muito antes da pandemia de covid-19. Mas em Angola ainda é algo “novo”. A que se deve a não implementação do mesmo em Angola?

Conforme sublinhado na questão anterior, o principal constrangimento tem a ver com a regulamentação, seguida de uma política de inclusão digital amplamente alargada e transversal. O ensino à distância tem mais vantagens que desvantagens. Isto é ponto assente. Daí tê-lo descrito como um recém-nascido (prematuro). Sabíamos todos que chegaria até à nós a qualquer momento mas, prematuramente, fomos assolados pela covid-19. Consequentemente, o Ead acaba sendo responsabilizado até pelas dificuldades do modelo presencial, condições socioeconómicas e demais periféricos; alheios a um modelo que está difundido e aprovado pelo mundo, inclusivamente, em Angola, muitos já se têm usado de formações à distância e semipresencial, essencialmente em cursos de pós graduação, mestrado e doutoramento. Neste caso, oferecidos por instituições internacionais. Será que um estudante do Bailundo não gostaria de estudar na Faculdade de Engenharia – UAN, sem precisar abandonar as suas raízes, família, emprego e amigos? Desta forma, possivelmente, teríamos quadros mais capacitados por todo país. Este é só um dos vários exemplos/vantagens. Apesar dos constrangimentos que podem acarretar esta implementação, em ambiente atípico, julgo que estamos perante o melhor momento para implementarmos o Ead em Angola.

Penso que mais do que discutirmos se este modelo é ou não ideal/eficaz, deveríamos estar a discutir sobre o seu modelo de implementação.

O futuro chegou no presente, sendo assim, não podemos permanecer no passado. Só será possível usufruirmos dos benefícios vários do ensino à distância e semi-presencial a partir de 2021, se começarmos a dar os primeiros passos em 2020.

De que forma a plataforma “Nova Educação” pode auxiliar as escolas nesse período de pandemia?

Do mesmo jeito que ajudará no pós covid-19. Promovendo inclusão, flexibilidade, acessibilidade e até redução de custos. A Nova Educação é mais do que uma plataforma de Ead. Somos uma solução em educação que integra alunos, professores, gestores e instituições públicas e privadas em um ambiente virtual/digital, traduzindo toda jornada acadêmica nos módulos Acadêmico, Matrícula, Sala de Aula, Formulários, Relatórios, Bibliotecas (física e virtual), Eventos Acadêmicos, Financeiro, além de integrações com Iot (internet of things), ao maior ERP do mundo – SAP e à Gateways de pagamento. Com estas funcionalidades as instituições estarão aptas para oferecer todos os serviços já disponibilizados presencialmente, com inclusão das facilidades do modelo remoto. Desta forma, em face às restrições que a pandemia exige, será possível dar-se sequência às aulas cumprindo com os devidos pressupostos do ensino e aprendizagem. Desde que, todos os intervenientes estejam conectados à internet, sob os perfis de aluno, professor, coordenação de turma, secretaria, directoria, encarregado de educação e até inspecção por parte dos órgãos de tutela.

Abrange todos os cursos?

A nossa Plataforma é adaptável à todo tipo de instituição de ensino: infantil, primário, secundário, técnico-profissional, superior, extensão, formações avançadas, idiomas e outros.

Quais os custos para o estabelecimento de ensino? E para os alunos?

O custo referente à instituição; talvez não fosse esta a denominação. Diria que o investimento a ser empenhado pela instituição é referente ao Setup e configuração da plataforma e formação dos professores, feito em parcela única. Quanto aos alunos, uma vez tendo acesso à internet é inferior à 50,00kz por dia. Todavia, o nosso plano de responsabilidade contempla isenção/suspensão de cobrança às instituições e alunos, enquanto perdurar a suspensão de cobrança de propinas aos alunos/estudantes.

O ensino à distância costuma ser mais barato do que o presencial. Acha que seria uma forma de promover formação para os jovens que não possuem meios de arcar com as propinas, sobretudo nas universidades?

Exactamente, com a implantação do ensino à distância e semipresencial, alunos e instituições terão um leque de oportunidades num simples “clique”. Instituições poderão atender mais alunos que a sua capacidade física, disponibilizar mais cursos, reduzir custos operacionais e a semelhança de outros países, muitos cursos podem passar a ser oferecidos 100% online ou em modelo híbrido considerando-se 50/50 presencial e à distância. Alunos terão a chance de reduzir esforços e demais constrangimentos com transporte, propinas mais acessíveis, flexibilidade de horários, acesso à “todas” instituições do país a partir do seu ecrã; cursar cadeiras em atraso ou puxá-las, no seu tempo; efectivação de matrícula e confirmação online; solicitação, emissão de documentos e realização de provas de forma virtual. Estas são algumas vantagens e oportunidades que o modelo Ead pode conferir.

Os discentes e docentes no país estão preparados para tal realidade?

Acredito que a maior dificuldade, tendo sido superada a questão da regulamentação, no curto prazo, será a conversão dos professores para este modelo. Entretanto, o nosso alinhamento estratégico, visando colmatar este “trade-off”, contempla um programa de capacitação denominado – Novo Professor. Formação voltada para professores de todos os níveis de ensino, visando o desenvolvimento de habilidades com as ferramentas de tecnologia educacional. Após esta formação, certamente, estarão aptos para tornar as aulas online mais interactivas e eficientes. No tocante aos alunos, a adaptabilidade será mais simples.

O desenvolvimento desta plataforma levou em conta as especificidades do ensino em Angola?

A Nova Educação contempla as funcionalidades das plataformas Ead mais modernas do mundo. Quanto às especificidades do ensino em Angola, não vemos diferenças com outros países. Aliás, estudei no exterior do país e nunca deixei os nossos créditos em mão alheias, a semelhança de muitos angolanos pelo mundo que vemos destacar-se todos os anos dentro e fora de portas. O que fizemos, e porque percebemos que determinaria a inclusão que se pretende para o ensino, foi estratificar a população académica em 4 (quatro) grupos, vide a figura abaixo:


Desta forma, com as políticas de inclusão devidamente implementadas, acreditamos que será possível termos a retomada das aulas, no curto prazo, e um novo paradigma na educação em Angola, à médio prazo.

Acredita que seria uma forma de promover a alfabetização digital no país?

Sem dúvidas. Conforme a figura acima, ensino à distância não é online, somente. O que o nosso ensino precisa é ser mais inclusivo e adaptável a realidade mundial. Estamos na era digital… Fazemos chamadas de vídeo, mandamos e-mails, pedimos taxí e comida pelo aplicativo; Por que não estudarmos em uma plataforma Ead? A ciência tem investido muito fortemente em robótica, inteligência artificial, Big data e IoT (internet of things), não podemos ficar à margem de tão importantes avanços. Todas as profissões estão e serão cada vez mais impactadas pela tecnologia.

Com os processos de produção de vacinas contra o novo coronavírus já em fase adiantada, muito discute-se sobre o mundo pós pandemia. O digital tem tido um papel fundamental para que as economias continuem a funcionar. Acredita que este cenário irá manter-se?

A covid-19 deve acompanhar-nos por mais uns 12 meses, sensivelmente. Pois as vacinas só devem começar a ser comercializadas e distribuídas em massa em 2021. Ademais, o coronavírus é só mais um vírus, pois se olharmos para trás veremos que estas pandemias são cíclicas e as nações daqui para frente devem estar em “alerta”. Permitindo que as suas populações sejam o mínimo atingidas, caso com um novo “inimigo” nos deparemos. As 10 maiores empresas do mundo são do sector de tecnologia, penso com isso responder a esta questão. O mundo é, e cada vez mais, será digital. Uma das principais vantagens do universo digital são a economia de tempo e a assertividade. Um dos maiores activos nos próximos tempos será o tempo, visto que o dia sempre terá 24h, o ser humano, socorrendo-se da tecnologia/digital, irá buscar incansavelmente por maior produtividade e escalabilidade.

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