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Opinião

O discurso de João Lourenço: um chamado à modernização controlada e ao diálogo com a sociedade visando 2027 

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A abertura da X Sessão Ordinária do Comité Central do MPLA, conduzida pelo Presidente João Lourenço, oferece-nos matéria-prima para uma reflexão que extravasa o âmbito da mera crónica partidária. Estamos perante um discurso que, embora inserido no calendário orgânico do partido, funciona como um documento estratégico: nele se cruzam a gestão interna de expectativas, a leitura do quadro sociopolítico angolano e uma visão — ainda que periférica — sobre o posicionamento geopolítico do país.

O factor “base” como instrumento de renovação controlada

O anúncio de que 15% dos futuros membros do Comité Central e dos órgãos intermédios serão recrutados directamente nos Comités de Acção (CAPs) merece uma leitura cautelosa. Por um lado, é inegável o simbolismo: o Presidente do MPLA reconhece publicamente a existência de “jogos de influência” que, no passado, preteriram quadros da base em favor de candidatos com maior poder de lobby interno. Esta admissão, vinda do topo da hierarquia, funciona como uma válvula de escape para tensões acumuladas nas estruturas locais.

Por outro lado, é preciso questionar: 15% será um número suficiente para oxigenar a direcção do partido? Trata-se de uma concessão calculada, que permite a renovação sem, contudo, desconfigurar o núcleo duro da direcção do partido. O que parece claro é que a máquina do MPLA se prepara para as eleições de 2027 e sabe que a mobilização real depende mais dos activistas de base do que dos grandes comícios. A ênfase no “porta-a-porta” e na “base estatística” revela uma leitura consciente da realidade: o MPLA sabe que a abstenção é o principal adversário à combater.

O diálogo com a sociedade

Um dos aspectos mais subtis, mas politicamente relevantes, do discurso do Presidente João Lourenço foi a recomendação expressa sobre a necessidade de manter o diálogo com os diferentes segmentos da sociedade angolana, com particular ênfase nos “líderes e fazedores de opinião”. Esta orientação não é mera retórica discursiva; insere-se numa estratégia mais ampla de ocupação de espaços de influência que extravasam a estrutura formal do partido.

Numa altura em que o ecossistema mediático e digital se fragmenta, e em que novas lideranças comunitárias, religiosas, empresariais e académicas emergem fora dos circuitos tradicionais do partido, a orientação de João Lourenço reconhece uma realidade que não se recomenda ignorar: ganhar eleições já não se faz apenas com a máquina partidária. Faz-se também, e cada vez mais, com a capacidade de penetrar nos círculos onde a opinião pública se forma e se reproduz.

Os “fazedores de opinião” — sejam eles jornalistas, influenciadores digitais, líderes religiosos, comentaristas e analistas ou académicos — funcionam como caixas de ressonância que podem legitimar ou deslegitimar narrativas. Ao recomendar o diálogo com estes actores, o Presidente do MPLA sinaliza que o partido não pode limitar-se a falar para dentro; precisa de conquistar corações e mentes também fora do seu perímetro tradicional. É uma estratégia de convergência que, bem executada, pode alargar a base de apoio do partido para além dos seus militantes orgânicos.

No entanto, esta abertura ao diálogo coloca um desafio de coerência interna: como compatibilizar a apologia do diálogo com a denúncia, também presente no discurso, da “intolerância política” e da “disseminação de notícias falsas” por parte da oposição? A linha entre o diálogo legítimo e a tentativa de neutralização da crítica é ténue, e a forma como o partido navegará esta fronteira será determinante para a percepção pública da sua abertura democrática.

O combate nas redes e a estratégia de antecipação

Outro ponto que merece destaque é a centralidade que o discurso atribui às redes sociais e à desinformação. João Lourenço não se limitou a constatar um fenómeno; ele identificou um adversário e um campo de batalha. Ao referir-se ao “discurso antecipado da suposta fraude eleitoral” e ao mito do “túnel”, o líder do MPLA desarma preventivamente a narrativa da oposição política.

Esta é uma estratégia que visa reforçar a coesão interna. A referência à “intolerância política” e ao “ódio” promovidos pela oposição sugere que o partido se prepara para uma campanha eleitoral agressiva, onde a disputa ideológica dará lugar, em grande medida, a uma guerra de narrativas; por isso, ter o controlo da narrativa, estar com os melhores intérpretes, será estrategicamente fundamental para o desfecho do resultado eleitoral.

O alinhamento com o Sul Global

A incursão de João Lourenço na análise da conjuntura internacional não é despicienda. Ao criticar a “força das armas das maiores potências mundiais” e a ineficácia do Conselho de Segurança da ONU, o Presidente angolano alinha o discurso do MPLA com uma corrente do Sul Global que reclama um multilateralismo mais equilibrado.

Esta posição, embora de alcance prático limitado, cumpre uma função política interna e externa. Internamente, projecta a imagem de um líder com visão global, capaz de situar Angola no concerto das nações. Externamente, reforça laços com países e movimentos que partilham a mesma retórica anti-hegemónica. A solidariedade expressa para com os povos da Palestina, da Ucrânia ou da RDC insere-se neste quadro: é a linguagem diplomática de um país que procura afirmar-se como actor global, mesmo com recursos limitados.

O discurso como roteiro eleitoral

Em suma, o discurso de abertura da X Sessão Ordinária do Comité Central deve ser lido como um roteiro para o próximo ciclo político. As linhas de força estão traçadas: renovação controlada dos quadros, aposta na militância de base, diáberto permanente com os líderes e fazedores de opinião, preparação para a guerra informática nas redes sociais e manutenção de uma retórica internacional alinhada com o Sul Global.

O IX Congresso Ordinário, marcado para Dezembro, será o verdadeiro teste de fogo. É lá que se verá se a proposta dos 15% é aprovada sem resistências, se a base é efectivamente incorporada nos órgãos de direcção, se o diálogo com a sociedade se traduz em algo mais do que retórica e se o partido consegue equilibrar a necessidade de renovação com a preservação das suas estruturas históricas. Até lá, o discurso de João Lourenço fica como um marco: o momento em que o MPLA admitiu, publicamente, que para vencer o futuro precisa, antes de mais, de acertar contas consigo próprio e de abrir-se, sem complexos, ao diálogo com a sociedade que pretende continuar a liderar.

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