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Opinião

O Despertar de África: golpes com lideranças pan-africanistas

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Nos últimos tempos, temos acompanhado uma série de mudanças profundas no continente africano, com lideranças voltadas ao interesse interno, ao proteccionismo, a devolver o poder ao povo. São poucos ainda que o fazem com alguma liberdade, que não estão interessados em perpectuar no poder através da força ou alterações constitucionais. Líderes como da Zâmbia, Hakainde Hichilema, da Tanzânia, Samia Suluhu, que demonstram categoricamente que o seu povo é autónomo e independente, pois participam directamente nas decisões, mesmo que a sua realidade seja antagónica a de outros países que compõem o continente, mas são factos, e há muitos outros bons exemplos.

O Despertar de África, começa com pequenos sinais, com pequenas mudanças e grandes discursos, que noutrora, foram elementares para a revolução e libertação do continente, onde vozes de comando como a de Kwame Nkrumah, defendiam a unidade política de toda África, fazendo nascer a doutrina pan-africanismo, que propunha a união de todos os povos, como forma de potencializar a voz do continente contra o opressor. Nesta fase foi derramado muito sangue, para a libertação do continente em 1960. Ainda nesta senda, em 1961 nasce o Movimentos dos Não Alinhados, onde muitos países africanos fizeram parte, para ajudar outros povos no globo que tinham o mesmo problema, promovendo a paz e independência e autodeterminação entre os povos membros.

África sempre foi uma referência no que se trata a liberdade e emancipação dos seus povos e territórios, tem muita experiência neste campo, portanto, entramos no ponto.

Por que um despertar de África? Porque estamos a ver movimentos que no antanho, tinham as mesmas vestes, só que a única diferença, é que hoje, quem está no leme é o nato, ou seja, o combate hoje é entre irmãos da mesma terra. Os factores endógenos e exógenos são cruciais para avaliarmos estas mudanças, e, o radicalismo nestas mudanças, começa na região de Sahel, no cinturão de África, onde o colono é francês, e o seu método de subjugar é moderno.

Devido aos vários golpes de Estado que tem ocorrido na região de Sahel, é importante percebermos qual é a palavra de ordem destes golpistas, não somente as acções que se consubstanciam em ilegalidade, mas, também a narrativa usada, muito próxima aos discursos e acções defendidas no pan-africanismo. Mali, Chade, Niger, Guiné-Conacri (este com algumas excepções) Burquina Faso, Sudão (também com excepções), têm muito em comum nos seus discursos e estão formando uma aliança de Ajuda Mútua, Defesa e Segurança, e não Ingerência nos Assuntos Internos.

O Capitão Ibrahim Traoré, um jovem, que se notabilizou pelos discursos ao estilo pan-africanista, tem sido o mais intervencionista, mesmo quando França disse que, não dará mais apoio, encerrando oficialmente toda ajuda económica e humanitária ao Burkina Faso, Traoré respondeu: Recebemos ajuda francesa há 63 anos, mas nosso país não se desenvolveu, então cortá-la agora não nos matará, mas nos motivará a trabalhar e confiar em nós mesmos.

Os factores endogénicos: está ligada ao cepticismo político, as pessoas estão agastadas do modelo que vigora, pois não os têm beneficiado em nada, o país é rico, tem tudo no seu solo, mas o povo não sente, então clama por socorro, por alguém que mude este quadro, seja por qualquer via, e os militares, são a única solução, primeiro pela proximidade com o decisor e segundo pelo acesso as armas;

Outro ponto, é que isto pode não resolver em nada, alias, piorar, mas o povo quer tentar desta forma, e aplaudem os golpes, saem a rua, fazem festa, não porque odiavam o presidente desposto, mas pela inação e favorecimento externo, parecendo estar mais preocupado com os seus interesses pessoais;

E o ponto mais importante, é o facto de tentar dar um golpe constitucional, ou seja, já não corresponde as expectativas e os anseios da população, ainda vem quer alterar a constituição para se perpectuar no poder, factos que descarrilam a paciência do povo;

Os factores exogénicos: hoje o povo tem acesso a mais informação, através da internet e das redes sociais, sabem o que é bom e o que é mau, fazem avaliações, lêem, viajam, e notam quando estão a ser manipulados;

O ponto mais importante, é verem que países ocidentais têm de tudo mas extraem dos seus territórios, ou seja, não quase recurso algum, ou grandes reservas, mas têm um desenvolvimento abismal com o país onde retiram estes bens, e vão percebendo que têm alguém no poder que não os protege, que não vela pelos seus interesses, que existem contratos que nada beneficia a sua terra, tudo vai para exterior;

O ex ministro angolano das Relações Exteriores, Geoges Rebelo Chicoti, já havia alertado sobre este modelo imposto por França, um neocolonialismo tão visível que um dia teriam problemas, e o grupo paramilitar Wagner, percebeu desta falha e se implantou na zona e tem estado por detrás destes golpes, para expandir uma nova ideologia na região, por isso, quase todos golpistas, falam a mesma língua, usaram os mesmos métodos, e, qualquer intervenção militar, teriam apoio comum.

Por mais condenável que sejam, são golpes que defendem o interesse do continente, e a CEDEAO ignorou todos os outros golpes para se fixar neste último no Níger, promovido pelo guarda presidencial Abdourahamane Tiani, retirando do poder o presidente Mohamed Bazoum. Por que razão a CEDEAO vem ignorando tantos outros golpes, tantas outras ilegalidades e injustiças, mas quer entrar no Níger? Entrou na Gâmbia em 2017, mas as irregularidades não ficaram por aí. Será que estão a ser forçados, para proteger interesses ocidentais na região, como o Urânio? Quais são os acordos assinados entre estes blocos?

As mudanças são inevitáveis, mais cedo ou mais tarde elas acontecerão, cabe aos decisores, saberem ler os sinais dos tempos, os golpes não são soluções, podem trazer problemas maiores, porém, quando os discursos, são de interesse dos povos, toca os seus corações, não são tidos como golpistas, mas salvadores, por esta razão, no Níger, foi nomeado de imediato um ex ministro das finanças Mahamane Zeine como primeiro-ministro.

É crucial perceber que, todas estas questões se resolvem dialogando, fazer parcerias mais equilibradas, encaixar todas as partes, foi para isto que África lutou, para acabar com a exploração, portanto, a inclusão é peremptória, não se agarrando ao poder a força como o colono fez há décadas, para obrigar a novas revoluções, pois, estas práticas fará ascender pessoas que lutarão contra este modelo, que não vai de encontro ao continente ao seu povo, e começa de pequeno, que pode ser cortado a cabeça como aconteceu com Patrice Lumumba, mas a semente foi lançada como fez o Capitão Traoré.