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Opinião

O conflito entre Rússia e a Ucrânia numa perspectiva étnica

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Casos similares ao que vemos hoje, no prenúncio deste conflito entre a Rússia e a Ucrânia, levam-nos há vários outros que ocorreram num passado recente, onde muitas vezes, somos até induzidos a olhar o panorama estratégico, territorial, ou mesmo poderio militar, onde a Rússia, o mais forte, exige do seu vizinho e do ocidente em geral, a não adesão da Ucrânia à NATO, fazendo de tudo para não ter o inimigo tão perto das suas fronteira, e usará todos os meios possíveis para afastar o ocidente para bem longe do seu território, estacionando meios militares e mais de 1000 homens, para dissuadir a adesão ao bloco militar ocidental, caso adiram, estaremos perante a um outro patamar de conflito.

As presidências ucranianas sempre foram pro russas ou equilibradas. Por exemplo, o antigo presidente que foi deposto do poder em 2014, Viktor Yanukovych, vive exilado na Rússia, e tudo muda a partir desta data, quando Petro Poroshenko assume a presidência, sendo incapaz de impedir a ocupação da Crimeia.

“A expansão da NATO, é uma violação aos acordos celebrados”, diz V.Putin.

Ora vejamos:

A Rússia e a Ucrânia, vivem em clima de tensão muito mais profunda, desde que a aliança Pacto de Varsóvia desmoronou-se, e com isto, trouxe enormes consequências aos russos. Desde o desmembramento da URSS, perca extensiva de vários territórios, a queda da KGB, nascendo a FSB, perca sucessiva de aliados, tudo isto porque a cortina de ferro que havia na Europa, acabando por afectar o mundo, tinha caindo por terra, ou seja, a queda do Muro de Berlim em 1989, mudou complemente o mundo, a historia, e os russos foram os grandes perdedores neste processo. Uma guerra ideológica, onde cada um devia escolher um lado, e alinhar-se a ela.

A Rússia, de forma sistemática, foi perdendo tudo, de 1990 a 1992 foram anos negros, a NATO, aliança militar ocidental foi conquistando tudo que via pela frente, implementando a sua ideologia capitalista em pontos próximos a Rússia, e como os russos estavam nos escombros, a tentar perceber os danos destas perdas, não conseguiram contrapor estas investidas ocidentais, pois, estavam a perder de várias frentes. Na altura em que ocorria todas estas investidas, Vladimir Putin se encontrava em Dresden, Alemanha, e com a queda do Muro Berlim, teve de sair, e voltar à Rússia.

Putin, acompanhou de perto o que ocorreu com o seu país, desde a Alemanha, e não conseguia perceber o porquê aconteceu de tal forma que os ocidentais quase entravam em Moscovo, mas não podia fazer nada. Porém, tirou várias lições, e jurou no silêncio, que se um dia chegasse à um cargo de decisão, que lhe permitisse inverter ou pelo menos tentar, o faria, pois, sabia que estas perdas estratégicas, trariam um perigo enorme ao seu país.

O que estamos a ver hoje, é o despertar da Rússia, é o se reposicionar da Rússia no cenário politico internacional, é assentar a sua hegemonia, e tem o apoio do povo russo. Este apoio, é muito mais extensivo, transcende as outras fronteiras, outros povos, como é o caso de uma boa parte dos cidadãos ucranianos, por esta razão, foi muito fácil conquistar a região da Crimeia que pertenceu a Ucrânia até 2014, porque houve aprovação e consenso do povo daquela circunscrição territorial em mais de 90%. O factor étnico prevaleceu, por causa dos vínculos culturais, linguísticos, hábitos e costumes.

O dilema que hoje ocorre, é um cenário que não conseguiremos analisar, se não introduzirmos questões étnicas, pois, se houvesse unanimidade de todos ucranianos, já seriam membros da NATO, mas como boa parte do leste da Ucrânia resiste, é algo que não ocorre. A Rússia, sempre celebrou excelente acordos com os ucranianos, para nunca entrar na NATO, alias, se não são membros da União Europeia (EU), qual é a razão de serem membros da NATO? É o mesmo que o Ocidente faz com a Turquia, que não é membro da EU, mas como serve de tampão, mantendo a Rússia longe das fronteiras europeia, foi introduzido na NATO, o tornaram um excelente aliado, logo, a Rússia faz o mesmo com a Ucrânia, aproximou-se do presidente Viktor Yanukovytch (plano de Putin), aproveitou um presidente moderado e viu uma grande oportunidade, mas fora afastado do cargo pelo Parlamento em Kiev, após 93 dias de intensos protestos populares contra sua aproximação com a Rússia, por rejeitar o acordo com UE, a corrupção em seu governo e as tentativas de mudar a constituição. Foi substituído por Oleksandr Turchynov interinamente.

O dilema que hoje ocorre, é um cenário que não conseguiremos analisar, se não introduzirmos questões étnicas, pois, se houvesse unanimidade de todos ucranianos, já seriam membros da NATO

Quando Petro Poroshenko assume a presidência, um presidente pro-ocidental, e foi cumprindo a agenda ocidental, recebeu enormes financiamentos, grande apoio, a presença americana foi agudizando, e os russos, estancaram todo o apoio que servia para o desenvolvimento das províncias de Donetsk, Sumy, Donbass, que dependiam de muitos bens e serviços vindos da Rússia, e tudo corria bem em função dos factores étnicos que os dois povos partilhavam, língua, hábitos e costumes. E como os russos são mais poderosos em todos os aspectos, conseguiam tirar maior partido, se impunham sem forçar um jogo estratégico, na medida em que partilham uma vasta gama de valores culturais.

Contudo, o que estamos a ver, embora pareça ser um jogo de poder, um jogo estratégico, impedir o inimigo estar muito perto, mas há muito mais questões históricas e étnicas, os laços entre os dois povos. Sammuel Huntigton no seu livro Choque das Civilizações, abordou profundamente estas questões, que os conflitos poderiam ocorrer por estas partilhas históricas, questão negligenciada por Poroshenko, e custou-lhe o lugar, situação que novamente, o actual presidente, o ex comediante Vladimir Zelenski está a repetir, pois, vê o assunto numa visão política e não antropológica, porque fora a Rússia, a China, que também tem os seus interesses com os seu aliado, uma vez perto a NATO na fronteira russa, o acesso a China é muito mais facilitado, os meios de espionagem pode ser mais eficazes, um risco para os dois Estados membros permanentes no conselho de segurança das Nações Unidas.

Embora admitamos que poderá não houver uma guerra violenta, ficando nesta tensão espécie guerra fria, mas a Rússia fará de tudo para impedir, nem que tenha de partir para o última decisão, causar danos. Se a Turquia é usada como tampão, mesmo com todas as tensões que tenha com o ocidente, a Rússia usará o factor étnico na Ucrânia como o seu tampão, pois tem apoio de certa forma com o povo que faz fronteira.

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