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Opinião

O caso George Floyd: As fraquezas da imprensa Africana

Wylsony dos Santos

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A morte de um cidadão ocidental é mais sentida, divulgada e partilhada pelos africanos do que comentar a morte de um africano por mais violenta que seja. Parece filosófico mas não. Não coloco em causa o princípio internacional da solidariedade entre os povos, mais sim, de uma estrutura subtil, que permite aos ocidentais mediatizar a dor, a consternação e o sofrimento do seu próprio povo sem manipulação de qualquer índole.

Decerto que há variáveis que não nos devemos esquecer, desde logo, a variável cultural. O que leva cidadãos a partilharem ferozmente conteúdos de casos mediáticos insólitos distantes das nossas fronteiras, quando todos os dias temos uma realidade desoladora sobre os mesmos assuntos? É que só nos identificamos com tudo aquilo que tomamos conhecimento, sobretudo o que nos é dado a ver pela grande media e as redes sociais. E neste quesito é visível a hegemonia da imprensa ocidental e conglomerados da economia digital em influenciar o comportamento ou interesses por meios culturais.

Oitenta por cento do conteúdo dos noticiários geopolíticos que circulam pelo planeta são concebidos por agências de origens europeia e americana, não é difícil inferir que a base mediática das grades potências é praticamente a única fonte de informação para a imensa maioria da população mundial. Estamos a falar de uma capacidade de influência planetária ao estilo “imperialista” com imensos estereótipos.

Na ânsia de encontrar respostas para alterar essa dolorosa realidade, perguntei em Fevereiro de 2016 ao professor João Santareno Sousa, se o problema era da imprensa Africana ou da imprensa “preconceituosa” ocidental? Ao que prontamente respondeu: É um problema da imprensa Africana. O que na verdade o professor me estava a dizer é que faltava estratégia e visão dos líderes africanos no que diz respeito ao campo mediático.

A imprensa Africana e em particularmente a Angolana contínua apenas a reproduzir o que é produzido pela imprensa internacional, copiando ao mesmo tempo a sua lógica e seguindo de forma fiel a sua agenda de interesses e cronogramas. O caso das fontes portuguesas é ainda mais perigosa porque estes também são, muitas vezes reprodutores de fontes Inglesas,Norte-Americanas e Francesas.

A imprensa ocidental sempre diabolizou os países Africanos e em resposta os Africanos investiram mais nesses mesmos veículos, ainda que de forma indirecta, do que, nos órgãos dos seus próprios países.

Os rótulos: Angola o país mais corrupto do mundo, Angola o país mais minado do universo, Angola um país rico com vinte milhões de pobres, são o exemplos dessa narrativa discriminatória. É preciso proactividade, estratégia global e concertada, para grandes males, grandes remédios.

Por analogia, apresento sempre o modelo Chinês, controverso, mais tecnicamente aceitável: Soft power.

Para o gigante Chinês não bastava apenas ostentar o papel de segunda maior economia do mundo, precisava ocupar o seu espaço no palco mais importante do planeta: O campo mediático.

Para ultrapassar este impasse, a China investiu bilhões na imprensa, criou canais de informação, desportivos e entretenimento nas mais variadas línguas, investiu em centros de imprensas nas principais capitais mundiais, contratou correspondentes, instou os seus diplomatas e cidadãos a serem abertos e receptivos a imprensa, potenciou acordos de cooperação com estações de tvs e jornais, só para citar.

A china goza de um estatuto diferenciado, conseguiu equilibrar a narrativa ocidental, moldou o debate sobre as relações sino-africanas e com o resto do mundo.

Ainda que residual e isolados há exemplos encorajadores em Africa, falo de países que entenderam que o reconhecimento e a validação de uma determinada agenda geopolítica, passa, inequivocamente, pelo prisma mediático.

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