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MPLA, a meio do fim

Fonte: Jornal a Nação – Cabo Verde

Olivio N'kilumbo

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- olivio - MPLA, a meio do fim

O Movimento Popular de Libertação de Angola- , a priori Partido do Trabalho e depois dos Camaradas, fundado em 1956 para alguns, e no principio dos anos 60 para outros, está a viver um dos seus piores momentos políticos desde a Purga do 27 de Maio de 1977 em que, 30 a 80 mil angolanos durante dois anos foram mortos por uma tentativa de Golpe de Estado, perpetrado por um grupo conhecido como os Fraccionistas liderado por Nito Alves, então Ministro do Interior. A enérgica reacção política do Presindente António Agostinho Neto, sem espeço para a justiça entrar, acirrou e dividiu o MPLA para sempre. Esta acção levou a que muitos dos seus melhores militantes convictos, que estavam no partido porque acreditavam no projecto desde os tempos dos Maquis, a fugir do partido e do país, reagindo muito mal aos graves excessos de Neto e seus mais próximos colaboradores tidos como Crioulos e Burgueses na perspectiva dos Fraccionistas. A verdade é que depois de 1977, o MPLA já não é o mesmo. Esta acção teve um efeito bola de neve do partido para o Estado, com consequências visíveis até aos dias de hoje. A falta de quadros, o medo de agir, de falar, de reevindicar por um direito, a inexistência de uma consciência política activa e apurada em Angola é também resultado da obra prima maquiavélica desenhada por Agostinho Neto em 1977. “Xé menino não fala política”, foi a frase do tempo colonial que sonegou muitas das iniciativas políticas de jovens que lutavam para ser livres do jugo colonial. O MPLA adoptou e implementou a mesma frase dita de outra forma pelos mais velhos aos mais novos dizendo: “Cuidado filho, não fala assim o MPLA mata”. A verdade é que foram elimidados fisicamente e em massa, todos quanto criticavam e possuiam já uma visão de Estado e achavam que o País dirigido por Agostino Neto estava desviado da sua razão objectiva, da verdadeira causa das lutas dos povos pela liberdade, ou seja estava em marcha um neocolonialismo camuflado.

Em 1979, quando José Eduardo Dos Santos-JES chegou ao poder por meio da nomeação pelo Comité Central do MPLA orgão deliberativo máximo do partido, por causa da morte prematura de António Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola. Estava ali uma promessa e a esperança para MPLA que dirigia Angola, confiaram ao jovem de 37 anos a nobre missão de gerir um dos Estados mais estratégicos de África e da luta de emancipação de Angola. Durante os 38 anos JES, teve três momentos decisivos de elevação e consolidação do seu poder: Consolidou o MPLA como partido Estado, fê-lo mais poderoso do que qualquer outra instituição pública, finalmente retirou do MPLA o poder que tinha extraído do Estodo e o cristalizou para si, com a aprovação em 2010 da Constituição da República de Angola – CRA, transformando o Presidente na figura mais poderosa (poder unipessoal). A bajulação e o culto a personalidade foram dos primeiros sinais da crise ideológica, desvio da matriz e que se estava a desenhar o princípio do fim. Desse ponto de vista, fica provado que JES foi uma má aposta dos camaradas.

Em 43 anos com o MPLA no comando, os 38 de JES, Angola ainda não é um bom país para se viver. Um país com inúmeros recursos tais como o petróleo, diamantes (minerais altamente estratégicos), mar, floresta, deserto, extensão territorial, posição geográfica favorável, água abundante (quarta maior bacia hidrográfica de Africa), uma população bastante jovem (maior riqueza de um país) enfim, um país com tudo para dar certo, mas que não foi governado por políticos comprometidos e com vontade de realizar Angola. Após o conflito armado, foi como se Deus, se tornasse angolano, na medida em que o petróleo, a maior moeda de troca mundial, em que Angola foi o terceiro maior produtor depois da Nigéria e da Líbia. Teve por mais de 8 anos o barril acima dos 100 e chegou mesmo a 140 USD no mercado internacional. De recordar que houve uma baixa na curta crise de 2008, mas 8 meses depois voltou ao mesmo preço até o ano de 2014. Dados do Banco Nacional de Angola-BNA, revelam que no período de 2004 a 2014, 600 mil milhões de Usd foram arrecadados pelo Estado angolano vindas só do petróleo. Informações de outras instituições financeiras pelo Mundo, reportam para valores muito acima destes, fala-se mesmo em 2 trilhões de USD. É muito dinheiro… Dinheiro mais do que suficiente para criar do nada um país em pleno deserto. Tudo para dizer que, mesmo com todas estas excelentes condições económicas e políticas (sem conflito), o MPLA não teve competência de realizar Angola e torná-la num bom lugar para se viver. Mais de 70 % dos angolanos são miseráveis, pobres e vulneráveis. Com a implementação da acumulação primitiva do capital (que eu considero um crime contra a humanidade), medida económica que criou uma burguesia em pleno séc XXI, Angola viu surgir uma oligarquia criada no MPLA. A cleptocracia deu espaço ao nepotismo, amiguismo, clientelismo e o oportunismo. Antes de João Manuel Gonçalves Loureço-JLO ser Presidente, ser do MPLA já foi mais importante do que ser cidadão, o partido transformou-se na instituição mais poderosa e fonte da corrupção generalizada.

É surpreendente ver o MPLA um dos mais influentes partidos da Africa austral e do continente em geral, membro da internacional socialista e que ocupa umas das suas vice-presidencias, sempre soube “lavar a roupa suja em casa” hoje, levá-la em hasta pública… A troca de “mimos” entre militantes de alta estirpe do “glorioso” (novo e antigo presidente), é sinal de que o fim está a meio. O silêncio de JES é ensurdecedor, aliás é sua caracterisca, o homem quase que não fala mesmo diante do sofrimento do seu povo… O sucesso político de JLO depende e muito da eliminição política de JES, entendesse afastamento de JES do cenário político. Em um ano de governação de JLO, resistei salvo melhor avaliação apenas três saídas oficiais de JES. Uma pelo Movimento Nacional Expontâneo em sua homenagem, organização que foi parte da sua máquina política e que ao longo do longo reinado davam-lhe suporte, “nós organizamos todos participam”, já foi a frase mais dita pela mídia pública angolana. A inauguração das novas instalações da Fundação Eduardo Dos Santos – FESA foi a segunda e agora em resposta as afirmações de JLO feitas em intrevista ao jornal Expresso de Portugal segundo as quais “JLO encontrou os cofres vazios”. JES é um animal político, seu silêncio incomodou JLO que, com esta entrevista conseguiu assustar e retirar de forma estratégica JES da sua “toca”. Coisas da alta política, e uma digna jogada do Mestre de Xadrés e pode também ser um sinal que JES esteja já a colaborar com JLO nessa dificil empreitada de combate a corrupção de que JES foi opatrão… A reacção de JES as alegações de JLO, destapa a camuflada roptura no MPLA, é o mais evidente sinal que está instalado o antagonismo no maioritário. As políticas do MPLA, em quase nada visaram “resolver os problemas do povo”. Não foram capazes de lançar as bases para as conquistas do bem comum, ao contrário disso, criaram uma elite totalmente descomprometida com o país o que tornou o partido numa verdadeira Quimera sem controlo possível. O socialismo democrático como ideologia, esquerda de genese, optou pela esquerda dinâmica que prometeu o paraíso aos angolanos, mas vem dando o inferno nestes 43 anos, é caso para perguntar onde morreu a esquerda? Um partido que pisca sempre a esquerda, mas no final vira para a extrema direita, é um falso esquerdista. Nestas condições só resta uma coisa, refundar o MPLA. Agora sim há espaço para a teoria do Augusto Báfua Báfua (Comentador Político e Especialista em Relações Internacionais) segundo a qual, “os partidos políticos precisam de um tempo de vida útil para evitar os excessos, os vícios, bem como a criação de raízes que podem levar a perda de orientação e criar pensamentos alinhados e a consequente crise de liderança”. No discurso ao VII Congresso Ordinário, JLO deixou sinais que, pretende acabar com a política partidária e valorizar mais o Estado. Para mim ficou claro que JLO reconhece os erros do seu partido e, quer tentar corrigir o mal. Há uma verdade verdadeira, os danos causados pelo MPLA aos angolanos, são incalculável…

As eleições de 2017 não proporcionaram alternância política em Angola, mas sim a manutenção do regime. A luta do novo Presidente é alterar o sistema (baseado na corrupção e na redicularização social) instalado por JES e a razão dos seus 38 anos de consulado. A teoria nos diz que é preciso manter o regime e a alterar o sistema. É legítimo que o novo Presidente (da República e do MPLA), coloque a nova máquina política a funcionar sob sua condução e velocidade. É dever e obrigação de JES antigo Presidente deixar que isso aconteça se, tiver interessado em manter intacto o partido…Caso não aconteça, o partido vai bifurcar-se e no final das contas, quem vai perder é o MPLA. Pelo tom das acusações e gravidade do choque (situação irreverssível), vamos ver surgir novos partidos, formados e financiandos pelos perdedores dessa briga“palaciana” no seio dos camaradas. Os meios de comunicação surgidos nos ultimos 9 anos no país, e agora com maior velocidade no caso das rádios, jornais, televisão, revistas e a mídia alternativa (redes sociais), apresentam-se como armas fortes, criadas e financiadas pelos grandes grupos económicos para as batalhas do futuro em Angola. Diante deste facto, qual será o papel da oposição nesse momento? Assistir de camarotee capitalizar com as falhas do seu adversário…

MPLA, quem te viu e quem te vê. Viva o “glorioso” !?

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