Opinião
Morrer na estrada tornou-se normal em Angola?
Há tragédias que não são apenas acidentes. São sinais. Alertas. Gritos silenciosos de um país que insiste em normalizar o anormal. Infelizmente, as mortes nas estradas angolanas, somadas à qualidade duvidosa de muitas vias e ao comportamento de alguns condutores, revelam uma realidade inquietante: Angola precisa de vigilância permanente nas suas estradas.
Na madrugada de domingo, 15, a zona do Cabo Ledo voltou a ser palco de luto. Entre as vítimas mortais do acidente de viação estavam directores provinciais de saúde e chefes de enfermagem. Segundo dados confirmados pelo Ministério da Saúde de Angola, seis das vítimas eram profissionais do sector: quatro enfermeiros da província de Cabinda e dois da província do Uíge.
Não são apenas números. São quadros técnicos. São vidas dedicadas ao cuidado dos outros. São pais, mães, filhos e líderes comunitários. Quando o sector da saúde perde profissionais desta dimensão, não perde apenas capital humano. Perde experiência, liderança e esperança.
Mas até quando continuaremos a tratar os acidentes rodoviários como fatalidades inevitáveis?
Em muitos troços do país, as estradas apresentam buracos, sinalização insuficiente, iluminação precária e fiscalização irregular. No entanto, não se pode atribuir toda a responsabilidade à infra-estrutura. O comportamento automobilístico também está sob julgamento.
Excesso de velocidade, ultrapassagens perigosas, condução sob efeito de álcool, fadiga ao volante e desrespeito pelas regras básicas de trânsito continuam a ser práticas recorrentes nas estradas angolanas.
É neste ponto que se impõe a necessidade de vigilância permanente não apenas policial ou institucional, mas também cidadã, moral e preventiva.
Defendo, com clareza, que as principais vias do país deveriam contar com uma presença reforçada de agentes de segurança rodoviária e de protecção civil. Pode parecer uma medida ousada, mas é proporcional à gravidade do problema.
A presença visível da autoridade tem um efeito preventivo: reduz a imprudência, desencoraja o excesso de velocidade e reforça a sensação de ordem nas estradas.
Além disso, permitiria uma resposta mais rápida a acidentes, primeiros socorros imediatos, melhor coordenação com os serviços de emergência e maior controlo sobre comportamentos de risco.
Angola precisa de mais fiscalização efectiva nas estradas de maior perigo. Precisa também de tecnologia. Mas tecnologia sem presença humana não educa, não orienta e não dialoga com os condutores.
Precisamos igualmente de educação rodoviária desde a escola primária até às instituições públicas, acompanhada por campanhas consistentes e permanentes, e não apenas reacções ocasionais após cada tragédia.
Mais do que tudo, precisamos de uma mudança de mentalidade.
Conduzir não é um acto mecânico. É um acto ético. Cada volante representa uma responsabilidade social. Cada estrada é um espaço partilhado. Cada decisão ao volante pode preservar — ou destruir — uma família inteira.
A morte de directores provinciais de saúde e chefes de enfermagem deve servir como ponto de inflexão. Se até aqueles que dedicam a vida a salvar outras vidas estão vulneráveis nas nossas estradas, então nenhum de nós está verdadeiramente seguro.
Que esta dor colectiva não seja apenas mais um momento de comoção passageira. Que seja o início de uma cultura de responsabilidade permanente. Que a vigilância deixe de ser episódica e se transforme numa política pública estruturada.
Porque enquanto continuarmos a perder vidas que poderiam ser poupadas, não estaremos apenas a falhar na gestão das estradas.
Estaremos a falhar como sociedade.
E talvez, quando voltarmos a ver um agente ao longo das nossas vias, não vejamos apenas uma farda.
Veremos um símbolo de compromisso com a vida.
