Politica
Memória da guerra e desafios da paz marcam debate entre políticos, 35 anos depois dos acordos de Bicesse
A memória do conflito armado e os desafios da consolidação da paz estiveram no centro de um debate promovido este domingo, 31, no programa Especial Informação, da Rádio Correio da Kianda, onde representantes de diferentes forças políticas apresentaram leituras divergentes sobre o percurso da reconciliação nacional em Angola.
O militante do PRA-JA Servir Angola, Sebastião Salakiaku, considerou que o processo de reconciliação nacional conheceu avanços significativos nos primeiros anos após o fim da guerra, mas defendeu que, na última década, tem registado sinais de enfraquecimento. Para o político, a crescente polarização do discurso político tem contribuído para dificultar a convivência democrática e o entendimento entre diferentes sensibilidades.
Salakiaku alertou ainda para o impacto dessa polarização no tecido social, afirmando que a crítica política é frequentemente associada a posições partidárias rígidas, o que, no seu entendimento, prejudica o espírito de reconciliação nacional e o amadurecimento democrático. Defendeu, por isso, maior diálogo entre os actores políticos e a valorização de espaços permanentes de debate.
Pelo MPLA, o militante Ermelindo Jobe rejeitou leituras que atribuem responsabilidade unilateral pelo recomeço do conflito após as eleições de 1992, sublinhando que o período foi marcado por fragilidades estruturais no processo de paz e por um défice de confiança entre as partes envolvidas. Jobe defendeu uma abordagem histórica mais ampla, destacando que o contexto político e institucional da época influenciou a escalada da violência.
O político reconheceu ainda que a retoma da guerra deve ser compreendida à luz de limitações do processo de transição, incluindo dificuldades na consolidação das instituições e na implementação dos acordos de paz, reforçando, no entanto, que Angola tem registado progressos relevantes no caminho da estabilidade e da reconciliação.
Já o militante da UNITA, Raimundo Kizokola, trouxe para o debate a dimensão histórica dos processos de libertação nacional, destacando o papel dos Acordos de Alvor como um marco na luta contra o colonialismo e na conquista da independência. Para o político, os acordos representaram o culminar de um longo percurso de resistência dos movimentos de libertação.
O debate foi igualmente enquadrado no contexto das reflexões sobre os 35 anos dos Acordos de Bicesse, assinados em 1991, frequentemente apontados como um dos marcos da abertura ao multipartidarismo em Angola e das primeiras eleições gerais realizadas em 1992, ainda que seguidas de um novo ciclo de conflito.
O encontro evidenciou diferentes interpretações sobre o legado dos acordos de paz, a responsabilidade histórica pelos episódios de violência pós-eleitoral e os desafios actuais da reconciliação nacional num contexto de consolidação democrática.
